
O D-STAR nasceu para ser utilizado por rádio. Falamos para um repetidor em VHF ou UHF, esse repetidor entra na rede e, através dela, podemos chegar a outro repetidor, a um reflector ou directamente a outro radioamador. É provavelmente esta a imagem que quase todos temos quando começamos a utilizar D-STAR.
Mas há outra possibilidade menos conhecida e, no caso do IC-705, bastante interessante: entrar na rede D-STAR sem utilizar um repetidor local por RF.
É para isso que existem o Terminal Mode e o Access Point Mode.
À primeira vista parecem duas variantes da mesma função. Não são. No Terminal Mode o próprio IC-705 é a estação com que falamos; no Access Point Mode o IC-705 transforma-se numa porta de entrada RF para outro rádio D-STAR.
A diferença parece pequena quando dita assim, mas muda completamente a arquitectura da ligação.
Primeiro, o mínimo indispensável sobre D-STAR
Numa utilização tradicional de D-STAR, o percurso é aproximadamente este:
Rádio → RF → repetidor D-STAR → Internet → rede D-STAR → destino
O nosso rádio preocupa-se essencialmente com chegar ao repetidor. A partir daí é o gateway desse repetidor que encaminha a comunicação pela rede.
O destino pode ser outro repetidor, outro utilizador ou um reflector onde várias estações se encontram.
O que Terminal Mode e Access Point Mode fazem é permitir-nos substituir essa primeira parte do percurso.
Em vez de precisarmos de um repetidor D-STAR suficientemente próximo para receber o nosso sinal, podemos chegar à infraestrutura D-STAR através de uma ligação à Internet.
É especialmente interessante quando estamos num local sem cobertura D-STAR, em viagem, num hotel, numa segunda residência ou simplesmente quando queremos experimentar a rede sem depender de um repetidor local.
A própria Icom descreve estes dois modos precisamente desta forma: permitem fazer comunicações D-STAR pela Internet mesmo em locais onde não existe um repetidor D-STAR acessível por RF.
Terminal Mode: o IC-705 é o terminal
No Terminal Mode, falamos directamente para o IC-705.
Não há um segundo rádio e não existe uma transmissão RF entre nós e um repetidor D-STAR.
Podemos imaginar o percurso desta maneira:
IC-705 → Internet → gateway D-STAR → reflector/repetidor → destino
O microfone, altifalante, codec de voz D-STAR e interface de operação continuam a ser os do próprio IC-705. A diferença é que, em vez de o sinal DV sair pela antena em direcção a um repetidor, os dados entram na rede através da ligação Internet utilizada pelo sistema.
É quase como se tivéssemos deslocado virtualmente o nosso rádio até à entrada da rede D-STAR.
Continuamos a seleccionar destinos, repetidores ou reflectores e continuamos a fazer uma comunicação D-STAR normal do ponto de vista do operador, mas a primeira etapa deixou de ser uma ligação RF.
Esta distinção é importante: Terminal Mode não transforma o IC-705 num hotspot.
O IC-705 é, neste caso, o próprio terminal.
Access Point Mode: agora o IC-705 passa a ser a porta de entrada
No Access Point Mode, a situação muda.
Agora utilizamos outro rádio D-STAR para falar por RF com o IC-705. Este recebe essa comunicação e encaminha-a para a rede através da Internet.
O percurso passa a ser:
Rádio D-STAR → RF → IC-705 → Internet → rede D-STAR → destino
Aqui sim, o IC-705 desempenha uma função bastante semelhante àquilo que normalmente associamos a um hotspot.
Podemos, por exemplo, ter um portátil D-STAR connosco e deixar o IC-705 a funcionar como Access Point. O portátil comunica por RF numa frequência simplex com o 705 e este fornece-lhe acesso à rede D-STAR.
Na prática criámos um pequeno ponto de acesso D-STAR privado.
É fácil perceber a diferença olhando apenas para quem utilizamos para falar:
| Terminal Mode | Access Point Mode | |
|---|---|---|
| Rádio onde falamos | IC-705 | Outro rádio D-STAR |
| Ligação RF local | Não | Sim |
| Papel do IC-705 | Terminal D-STAR | Ponto de acesso |
| Segundo rádio necessário | Não | Sim |
| Internet necessária | Sim | Sim |
Então para que serve o Terminal Mode?
Imagine-se numa casa onde não chega qualquer repetidor D-STAR.
Temos Internet, temos o IC-705, mas nenhuma infraestrutura D-STAR alcançável por rádio.
Tradicionalmente precisaríamos de instalar um hotspot — um pequeno equipamento composto normalmente por um modem digital, algum tipo de computador ou controlador e uma ligação Internet.
Com o Terminal Mode, para determinadas utilizações, podemos dispensar esse elemento intermédio.
O IC-705 já contém a electrónica necessária para codificar e descodificar D-STAR e pode funcionar como terminal da própria rede.
Isto torna-se particularmente interessante num rádio como o IC-705, pensado desde a origem para utilização portátil. Podemos levá-lo para outra casa, para um hotel ou para um local temporário e continuar a aceder ao D-STAR mesmo que não haja qualquer repetidor da rede nas proximidades.
E para que serve então o Access Point Mode?
O Access Point Mode resolve um problema diferente.
Suponhamos que queremos andar pela casa com um pequeno portátil D-STAR.
O IC-705 pode ficar ligado à Internet e funcionar como ponto de entrada para esse portátil.
O percurso seria, por exemplo:
ID-52 → 430 MHz simplex → IC-705 → Internet → D-STAR
Nesse cenário já existe RF local, mas não estamos a utilizar um repetidor.
Criámos nós próprios o nosso pequeno acesso à rede.
É também por isso que devemos ter atenção às frequências utilizadas e às regras aplicáveis à emissão: no Access Point Mode existe efectivamente uma transmissão radioeléctrica entre dois equipamentos.
Terminal Mode, Access Point ou hotspot?
É provavelmente a pergunta mais interessante.
Se Terminal Mode e Access Point Mode permitem fazer isto, porque razão existem tantos hotspots D-STAR?
Porque as soluções não são exactamente equivalentes.
Um hotspot dedicado pode ficar permanentemente ligado, consumir pouca energia, suportar várias redes digitais e libertar o rádio principal para outras utilizações. Dependendo do equipamento, pode ainda oferecer DMR, YSF, P25, NXDN ou outras redes além de D-STAR.
O IC-705, pelo contrário, é um transceptor completo que ocasionalmente pode assumir estas funções.
Terminal Mode é especialmente elegante quando queremos utilizar o próprio 705.
Access Point Mode é interessante quando queremos transformar temporariamente o 705 no acesso de outro rádio.
Um hotspot continua provavelmente a ser a solução mais cómoda para uma estação permanentemente ligada 24 horas por dia.
Não há uma solução “melhor”. Há arquitecturas diferentes para necessidades diferentes.
Uma particularidade importante: a Internet não substitui o D-STAR
Pode parecer uma distinção filosófica, mas tecnicamente é importante.
Quando utilizamos Terminal Mode não estamos a fazer uma chamada de voz pela Internet como no WhatsApp, Zoom ou numa aplicação VoIP.
A comunicação continua a ser D-STAR.
O áudio continua a ser tratado segundo o sistema DV e entra na infraestrutura D-STAR. O que mudou foi apenas o meio utilizado para chegar ao gateway.
É precisamente isto que torna o conceito interessante: RF e Internet deixam de ser duas redes separadas e passam a ser dois caminhos possíveis para entrar no mesmo sistema.
Um teste real: IC-705 directamente no XLX267
Enquanto actualizava o meu reflector XLX267 surgiu uma oportunidade perfeita para experimentar esta arquitectura.
O XLX267 tinha sido recompilado para permitir todos os 26 módulos, de A a Z, e precisava de confirmar se um dos módulos mais altos estava efectivamente operacional.
Escolhi o módulo Z.
Em vez de procurar um repetidor ou configurar um hotspot, coloquei o IC-705 em Terminal Mode e liguei-me directamente ao:
XLX267 Z
No servidor apareceu imediatamente:
Presence from ... as CT1EBQ on terminal CT1EBQ H
Config request ... for XLX267 Z
Opening stream on module Z for client CT1EBQ H
E no XML gerado pelo reflector:
<NODE>
<Callsign>CT1EBQ H</Callsign>
<LinkedModule>Z</LinkedModule>
<Protocol>Terminal/AP</Protocol>
</NODE>
Mais interessante ainda, depois de transmitir, o reflector registou também a estação:
<Callsign>CT1EBQ / 705</Callsign>
Era exactamente aquilo que queria observar.
Do lado do rádio estava simplesmente a utilizar o IC-705. Do lado do reflector, porém, era possível ver claramente que a ligação tinha chegado através do mecanismo Terminal/AP, directamente ao módulo Z.
E o Z apareceu imediatamente no dashboard do XLX267.
Há, contudo, uma pequena armadilha
Aqui começa uma segunda história.
Configurar o Terminal Mode no IC-705 não é tão intuitivo como a descrição anterior pode fazer parecer.
O Advanced Manual explica o processo, mas existem alguns passos cuja formulação temos praticamente de interpretar à letra. Quando tentamos aplicar aquilo que intuitivamente pensamos que a Icom quis dizer, podemos acabar com uma configuração aparentemente correcta que simplesmente não estabelece a ligação como esperamos.
Foi precisamente isso que me levou a explorar com mais atenção a configuração.
E merece um artigo separado.
Nesse próximo texto quero fazer exactamente o contrário deste: em vez de explicar o que é Terminal Mode, vamos pegar no IC-705, abrir o Advanced Manual e configurar tudo, passo a passo, menu a menu, até vermos no servidor:
Opening stream on module Z...
Porque há coisas que se compreendem muito melhor depois de as vermos funcionar.
Então, afinal, qual escolher?
A regra mental que utilizo agora é extremamente simples:
Quero falar no próprio IC-705? → Terminal Mode.
Quero falar noutro rádio através do IC-705? → Access Point Mode.
Quero uma infraestrutura permanente e independente do meu rádio principal? → Hotspot dedicado.
Depois desta distinção, aquilo que inicialmente parece uma floresta de modos e opções fica bastante mais claro.
E talvez seja esta uma das características mais interessantes do D-STAR: podemos entrar na mesma rede por um repetidor a dezenas de quilómetros, por um pequeno hotspot em cima da secretária ou directamente através de um rádio como o IC-705 ligado à Internet.
Os caminhos são diferentes.
A rede, porém, continua a ser a mesma.
73,
Ricardo Oitavén — CT1EBQ
