ICOM IC-705 — Terminal Mode na prática: entrar no D-STAR sem passar por um repetidor RF

No artigo anterior procurei explicar o conceito de Terminal Mode e de Access Point Mode no IC-705. Em ambos os casos há algo que, à primeira vista, parece quase estranho num rádio: podemos entrar na rede D-STAR através da Internet, mesmo que não exista qualquer repetidor D-STAR ao nosso alcance por RF. A diferença fundamental é que, em Terminal Mode, é o próprio IC-705 que utilizamos para falar; em Access Point Mode, o 705 funciona como ponto de acesso RF para um segundo rádio D-STAR.

Faltava a parte mais interessante: como se faz isto realmente? Foi precisamente aqui que comecei por complicar uma coisa que, depois de compreendida, é bastante lógica. O Advanced Manual da Icom explica o procedimento, mas algumas frases têm mesmo de ser interpretadas quase à letra. E desta vez tive uma vantagem extraordinária: como administro o XLX267, pude olhar para os logs do servidor e observar exactamente aquilo que o IC-705 estava a fazer do outro lado da Internet.

Antes de começar: o que faz realmente o Terminal Mode?

Numa utilização convencional do D-STAR, o primeiro salto é por rádio. O meu IC-705 transmite em DV para um repetidor próximo; esse repetidor possui um gateway ligado à Internet e é a partir daí que a chamada pode seguir para outro repetidor ou para outro utilizador da rede.

Simplificando:

IC-705 → RF → repetidor D-STAR → gateway → Internet → destino

No Terminal Mode retiramos precisamente esse primeiro salto por RF:

IC-705 → Internet → gateway D-STAR → destino

O rádio continua a tratar o áudio, a codificação DV, o nosso indicativo e o routing D-STAR. O que desaparece é a necessidade de transmitir pela antena para chegar a um repetidor local. O próprio manual é muito claro neste ponto: em Terminal Mode o transceptor não transmite nem recebe sinais RF através da antena.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-2 — “About the DV Gateway function”.

E aqui está uma surpresa importante: Terminal Mode não é “modo reflector”

Esta distinção merece ser feita logo no início porque eu próprio comecei por associar naturalmente Terminal Mode a “ligar o rádio pela Internet a um reflector”. O manual diz algo bastante diferente e muito mais interessante.

Na pág. 15-16, a Icom especifica que em Terminal Mode podemos fazer uma Gateway CQ Call ou uma chamada para uma estação específica através de call sign routing. E acrescenta explicitamente que não podemos efectuar a chamada seleccionando Local CQ ou Reflector.

Isto significa que o Terminal Mode preserva uma das características que considero mais elegantes do D-STAR: não precisamos necessariamente de saber onde está a estação que queremos chamar. Podemos seleccionar o indicativo dessa estação e o sistema de routing D-STAR procura encaminhar a chamada para onde esse indicativo foi registado/ouvido na rede.

Podemos igualmente escolher um repetidor remoto através de Gateway CQ. Portanto, conceptualmente, Terminal Mode não significa “Internet → reflector”; significa antes “Internet → gateway D-STAR”, e a partir daí utilizamos o routing que esse gateway disponibiliza.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-16 — “Operating in the Terminal mode”.

Então, e o XLX267?

Aqui começa precisamente a parte interessante da experiência.

No meu caso estou a utilizar o XLX267 como destino/gateway, e foi através dele que consegui chegar aos seus módulos. Isto não é o mesmo que seleccionar no menu DR a função normal Reflector, que o manual diz não estar disponível em Terminal Mode.

A solução apareceu quando segui literalmente a lógica do manual e utilizei:

TO → Direct Input (RPT)

Introduzindo, por exemplo:

XLX267 E

O “RPT” de Direct Input (RPT) pode induzir-nos a pensar exclusivamente num repetidor físico situado algures, a transmitir numa frequência VHF ou UHF. Mas aqui estamos a construir o routing D-STAR; não estamos a escolher a frequência do primeiro salto RF, porque esse primeiro salto simplesmente não existe.

Foi esta mudança de perspectiva que me fez finalmente compreender a operação.

O IC-705 possui Internal Gateway

Outra característica importante do 705 é que não precisamos obrigatoriamente de colocar um PC ou um telefone Android entre o rádio e a Internet. O IC-705 possui aquilo a que a Icom chama Internal Gateway Function.

Com o rádio ligado à Internet através da sua interface de rede, podemos utilizar directamente Terminal Mode e Access Point Mode. As aplicações RS-MS3W, para Windows, e RS-MS3A, para Android, continuam a ser possíveis através da função External Gateway, sobretudo quando o rádio não pode estabelecer directamente a ligação à Internet, mas não são necessárias na configuração que estou a utilizar.

No meu caso, portanto, o percurso é simplesmente:

IC-705 → Wi-Fi → Internet → gateway D-STAR

Sem computador, sem Raspberry Pi, sem hotspot MMDVM e sem qualquer outro equipamento intermédio.

Referências: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-3 — “When using the External Gateway function”; págs. 15-11 e 15-12 — “When using the Internal Gateway function”.

O que precisamos de preparar

Primeiro, naturalmente, o IC-705 tem de conseguir chegar à Internet. No meu caso utilizo a ligação Wi-Fi do próprio rádio através da rede local.

Depois precisamos de ter o nosso indicativo D-STAR devidamente registado e, além dele, um Terminal/AP Call Sign. O manual chama especial atenção para isto: não basta que o nosso MY Call Sign esteja correcto; o indicativo Terminal/AP também tem de estar registado no gateway.

No meu caso:

MY Call Sign: CT1EBQ

Terminal/AP Call Sign: CT1EBQ H

H não é uma letra que outro radioamador deva simplesmente copiar. É o sufixo que tenho registado para este acesso. A Icom especifica que o Terminal/AP Call Sign tem oito caracteres e que o último é um identificador entre A e Z, com algumas letras reservadas que não devem ser usadas.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-4 — “About the Terminal and Access Point (AP) Call sign”.

Configurar o Internal Gateway

No IC-705 entramos em:

MENU → SET → DV GW → Internal Gateway Settings

É aqui que configuramos os parâmetros necessários ao gateway interno. Entre eles encontramos o endereço do Gateway Repeater (Server IP/Domain), o nosso Terminal/AP Call Sign, o tipo de gateway e a opção UDP Hole Punch.

No Terminal/AP Call Sign coloquei, naturalmente:

CT1EBQ H

Gateway Type, fora do Japão, deve ficar em:

Global

E depois temos o UDP Hole Punch, que merece alguma atenção própria.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-11 — “Setting the Internal Gateway Settings”.

UDP Hole Punch: o que é e porque pode ser necessário

A maioria das nossas redes domésticas está atrás de NAT. O computador, rádio ou telefone possui um endereço IP privado e é o router que mantém a ligação com a Internet. Isto cria uma dificuldade óbvia quando alguém no exterior pretende iniciar tráfego UDP directamente para um equipamento que está dentro da nossa rede.

O mecanismo UDP Hole Punch procura contornar precisamente esta situação. Ao iniciarmos comunicação para o exterior é criada uma associação no NAT do router que permite que a resposta percorra o caminho inverso, sem termos necessariamente de encaminhar manualmente a porta UDP 40000.

No meu IC-705 utilizo:

UDP Hole Punch: ON

Mas esta solução tem uma limitação importante, e o manual explica-a muito bem: o “buraco” criado pelo NAT não permanece aberto indefinidamente. Passados alguns minutos — a Icom indica menos de três minutos, dependendo do router — podemos deixar de conseguir receber uma chamada de retorno até transmitirmos novamente para aquela estação.

Também não devemos entender UDP Hole Punch como substituto universal de um endereço IPv4 público ou de port forwarding. É sobretudo uma forma muito prática de permitir determinadas comunicações Terminal/AP em redes onde não controlamos toda a infraestrutura.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-6 — “About the UDP Hole Punch function”.

Finalmente: colocar o IC-705 em Terminal Mode

Depois de termos a ligação de rede e o Internal Gateway configurados, a entrada em Terminal Mode é extremamente simples:

MENU → DV GW → <<Terminal Mode>>

O rádio muda automaticamente alguns parâmetros: passa para DV, activa a função DR e coloca o nosso próprio indicativo em FROM. A Icom chama ainda a atenção para um detalhe curioso: Terminal Mode não é automaticamente cancelado quando desligamos e voltamos a ligar o transceptor.

No ecrã aparece também o ícone do Internal Gateway, que nos permite perceber se está em standby, a transmitir, a receber ou se existe algum erro de rede ou comunicação.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-15 — “Setting the Terminal mode”.

E agora, para onde queremos falar?

É aqui que o manual esclarece de forma muito interessante aquilo que podemos fazer em Terminal Mode.

Para fazer uma chamada geral através de outro repetidor escolhemos:

TO → Gateway CQ

e depois seleccionamos o grupo e o repetidor de destino.

Para chamar directamente outro radioamador escolhemos:

TO → Your Call Sign

e seleccionamos o indicativo da estação. O routing D-STAR trata depois de procurar o caminho para ela.

Isto é uma diferença conceptual enorme em relação a sistemas onde temos primeiro de descobrir o talkgroup, reflector ou repetidor em que a outra pessoa se encontra. No D-STAR, o indicativo pode ser o próprio endereço da chamada.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-16 — “Operating in the Terminal mode”.

O caso especial que experimentei: Direct Input (RPT) e o XLX267

Foi contudo outra possibilidade que me interessou nesta experiência: introduzir directamente o XLX267 como destino.

Em:

TO → Direct Input (RPT)

introduzi inicialmente:

XLX267 E

O módulo E do XLX267 encontra-se interligado ao XLX268, e essa ligação dá-me acesso ao REF095C. Assim, do ponto de vista da experiência, o percurso tornou-se aproximadamente:

IC-705 → Internet → XLX267 E → XLX268 E → REF095C

Há aqui uma distinção importante: no IC-705 eu não seleccionei Reflector → REF095C. Isso seria precisamente a operação que o manual diz não estar disponível em Terminal Mode.

Introduzi um destino através do routing de repetidor/gateway:

XLX267 E

e foi a configuração existente no XLX que tratou posteriormente da interligação.

Esta nuance explica grande parte da confusão inicial.

Uma experiência ainda melhor: XLX267 Z

Entretanto surgiu uma oportunidade perfeita para comprovar tudo isto.

Actualizei o servidor do XLX267 para passar dos dez módulos que tinha disponíveis para os 26 módulos possíveis, de A a Z. Depois de recompilar e instalar o XLXD 2.5.3 precisava de responder a uma pergunta muito simples: será que o módulo Z funciona realmente?

Em vez de montar um hotspot ou procurar um repetidor D-STAR, usei precisamente o Terminal Mode do IC-705.

No rádio:

TO → Direct Input (RPT) → XLX267 Z

Poucos segundos depois apareceu no servidor:

Presence from ... as CT1EBQ on terminal CT1EBQ H

e logo a seguir:

Config request ... for XLX267 Z (repeater)

Carreguei no PTT e o XLXD respondeu:

Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

Quando larguei o PTT:

Closing stream of module Z

Repeti a transmissão várias vezes e o resultado foi sempre o mesmo.

Não havia qualquer dúvida: o IC-705 estava a chegar pela Internet ao XLX267, o reflector reconhecia a ligação como Terminal/AP e abria efectivamente o stream no novo módulo Z.

O que o servidor vê do outro lado

Esta é uma das vantagens de termos acesso ao servidor: podemos ver aquilo que normalmente fica escondido atrás da interface do rádio.

No XML do XLX267 surgiu:

CT1EBQ H

LinkedModule: Z

Protocol: Terminal/AP

E, depois da transmissão, apareceu ainda:

CT1EBQ / 705

Há portanto duas informações diferentes. CT1EBQ H identifica a sessão Terminal/AP através da qual estou ligado ao gateway; CT1EBQ /705 identifica a estação que acabou de transmitir.

Foi também uma bela forma de confirmar que o novo módulo Z do reflector estava verdadeiramente operacional, e não apenas definido no código.

Uma coisa que o manual diz e que vale a pena decorar

Depois desta experiência voltei à pág. 15-16 do Advanced Manual e percebi que esta talvez seja a parte mais importante de toda a secção.

Em Terminal Mode podemos fazer:

Gateway CQ

ou

uma chamada para uma estação específica por call sign routing.

Mas não podemos efectuar a chamada seleccionando:

Local CQ

ou

Reflector

Isto acaba por ser perfeitamente lógico. Local CQ pressupõe uma área RF local e nós não estamos ligados por RF a um repetidor. E a operação normal Reflector do menu DR não é o mecanismo utilizado pelo DV Gateway em Terminal Mode.

O nosso teste com o XLX267 não contradiz esta regra: estamos a apresentar o XLX como um destino de gateway/repeater através de Direct Input (RPT), e é depois o próprio XLX que encaminha o tráfego para o respectivo módulo ou interlink.

Para mim, foi esta peça que finalmente arrumou todo o puzzle.

Terminal Mode e Access Point Mode são muito diferentes

Apesar de aparecerem lado a lado nos menus do IC-705, convém manter a distinção muito clara.

Em Terminal Mode:

IC-705 → Internet → D-STAR

Falamos directamente no IC-705 e não existe RF no primeiro salto.

Em Access Point Mode:

outro rádio D-STAR → RF → IC-705 → Internet → D-STAR

Neste caso o 705 passa a funcionar como um pequeno ponto de acesso para outro transceptor. Existe uma frequência simplex entre os dois rádios e, naturalmente, aplicam-se todas as regras habituais relacionadas com uma emissão radioeléctrica.

O manual trata esta segunda operação imediatamente a seguir, nas págs. 15-17 a 15-21.

E afinal, para que serve isto se tenho um hotspot?

Um hotspot continua a ser uma solução extraordinariamente conveniente. Pode ficar ligado vinte e quatro horas por dia, consumir muito pouco, suportar vários modos digitais e libertar o IC-705 para aquilo que ele realmente é: um transceptor extremamente versátil.

Mas Terminal Mode resolve outro problema.

Se estou numa casa sem cobertura D-STAR, numa viagem, num hotel ou simplesmente quero experimentar um gateway sem montar mais equipamento, tenho o rádio, uma ligação Wi-Fi e tudo aquilo de que necessito para entrar na rede.

No caso particular do IC-705, um rádio concebido para ser transportável e que já inclui Wi-Fi, a função faz muito sentido. Levo o rádio, ligo-o à Internet e posso continuar a utilizar o D-STAR mesmo num lugar onde não exista um único repetidor da rede ao alcance da antena.

Se eu tivesse de configurar tudo novamente amanhã

A sequência que guardaria seria esta:

1. Ligar o IC-705 à Internet por Wi-Fi.

2. Confirmar o registo D-STAR do meu indicativo e do Terminal/AP Call Sign.

No meu caso:

MY: CT1EBQ

Terminal/AP: CT1EBQ H

3. Configurar o Internal Gateway:

MENU → SET → DV GW → Internal Gateway Settings

e verificar o servidor/gateway, Gateway Type = Global e, quando apropriado, UDP Hole Punch = ON.

4. Entrar em Terminal Mode:

MENU → DV GW → <<Terminal Mode>>

5. Escolher o tipo de chamada:

Gateway CQ — para outro repetidor;

Your Call Sign — para uma estação específica através de call sign routing;

ou, na experiência que fiz com o XLX:

Direct Input (RPT) → XLX267 Z

6. Carregar no PTT.

No meu caso, do outro lado da Internet apareceu imediatamente:

Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

E nesse momento soube que tudo estava a funcionar.

O que aprendi com o Terminal Mode

A dificuldade desta função não está verdadeiramente nos menus. Está na nossa cabeça.

Estamos habituados a pensar uma comunicação D-STAR como uma sequência inseparável:

frequência → repetidor → gateway → destino

O Terminal Mode obriga-nos a separar duas coisas:

como entro na rede

e

para onde quero que a chamada seja encaminhada.

Em Terminal Mode entramos na rede através da Internet. A partir daí continuamos a utilizar o routing D-STAR: Gateway CQ, call sign routing e os destinos suportados pelo gateway que escolhemos.

Quando se percebe esta distinção, aqueles campos FROMTORPT e os indicativos deixam de parecer uma herança estranha de uma comunicação RF que já não existe. Estamos simplesmente a construir o cabeçalho e o percurso de uma chamada D-STAR.

E talvez seja esta a parte do Terminal Mode de que mais gosto.

O IC-705 continua a ser um rádio. Continuamos a carregar no PTT e a falar para o seu microfone. Mas desta vez não há qualquer onda de 144 ou 430 MHz a sair da antena à procura de um repetidor próximo.

Uns instantes depois, a centenas ou milhares de quilómetros, um gateway D-STAR recebe o nosso indicativo e sabe para onde deve encaminhar aquela chamada.

É uma bela combinação entre rádio, redes IP e aquilo que o D-STAR foi pensado para fazer desde o princípio.


Referências no IC-705 Advanced Manual

Secção 15 — ABOUT THE DV GATEWAY FUNCTION

  • 15-2 — About the DV Gateway function: conceitos de Terminal Mode e Access Point Mode.
  • 15-3 — External Gateway Function e utilização de RS-MS3W/RS-MS3A.
  • 15-4 — Terminal/AP Call Sign e requisitos de registo.
  • 15-5 a 15-10 — configuração da rede.
  • 15-6 — UDP Hole Punch, porta UDP 40000 e respectivas limitações.
  • 15-11 e 15-12 — Internal Gateway Settings do IC-705.
  • 15-13 — configuração através de RS-MS3W.
  • 15-14 — configuração através de RS-MS3A.
  • 15-15 — activação do Terminal Mode e significado do ícone Internal Gateway.
  • 15-16 — operação em Terminal Mode: Gateway CQ e chamada individual por call sign routing.
  • 15-17 a 15-21 — Access Point Mode.
  • 15-22 a 15-27 — diagnóstico e resolução de problemas; especificamente Terminal Mode nas págs. 15-23 e 15-24.

O manual inglês actualizado pode ser obtido na página oficial de suporte da Icom procurando por IC-705 Advanced Manual. Prefiro indicar desta forma em vez de copiar imagens ou páginas do manual, cuja reprodução pública é limitada pelas condições de utilização da própria Icom.

73 de Ricardo Oitavén — CT1EBQ,
and Eyla IA

ICOM IC-705 — Terminal Mode, Access Point Mode e D-STAR através da Internet

O D-STAR nasceu para ser utilizado por rádio. Falamos para um repetidor em VHF ou UHF, esse repetidor entra na rede e, através dela, podemos chegar a outro repetidor, a um reflector ou directamente a outro radioamador. É provavelmente esta a imagem que quase todos temos quando começamos a utilizar D-STAR.

Mas há outra possibilidade menos conhecida e, no caso do IC-705, bastante interessante: entrar na rede D-STAR sem utilizar um repetidor local por RF.

É para isso que existem o Terminal Mode e o Access Point Mode.

À primeira vista parecem duas variantes da mesma função. Não são. No Terminal Mode o próprio IC-705 é a estação com que falamos; no Access Point Mode o IC-705 transforma-se numa porta de entrada RF para outro rádio D-STAR.

A diferença parece pequena quando dita assim, mas muda completamente a arquitectura da ligação.

Primeiro, o mínimo indispensável sobre D-STAR

Numa utilização tradicional de D-STAR, o percurso é aproximadamente este:

Rádio → RF → repetidor D-STAR → Internet → rede D-STAR → destino

O nosso rádio preocupa-se essencialmente com chegar ao repetidor. A partir daí é o gateway desse repetidor que encaminha a comunicação pela rede.

O destino pode ser outro repetidor, outro utilizador ou um reflector onde várias estações se encontram.

O que Terminal Mode e Access Point Mode fazem é permitir-nos substituir essa primeira parte do percurso.

Em vez de precisarmos de um repetidor D-STAR suficientemente próximo para receber o nosso sinal, podemos chegar à infraestrutura D-STAR através de uma ligação à Internet.

É especialmente interessante quando estamos num local sem cobertura D-STAR, em viagem, num hotel, numa segunda residência ou simplesmente quando queremos experimentar a rede sem depender de um repetidor local.

A própria Icom descreve estes dois modos precisamente desta forma: permitem fazer comunicações D-STAR pela Internet mesmo em locais onde não existe um repetidor D-STAR acessível por RF.

Terminal Mode: o IC-705 é o terminal

No Terminal Mode, falamos directamente para o IC-705.

Não há um segundo rádio e não existe uma transmissão RF entre nós e um repetidor D-STAR.

Podemos imaginar o percurso desta maneira:

IC-705 → Internet → gateway D-STAR → reflector/repetidor → destino

O microfone, altifalante, codec de voz D-STAR e interface de operação continuam a ser os do próprio IC-705. A diferença é que, em vez de o sinal DV sair pela antena em direcção a um repetidor, os dados entram na rede através da ligação Internet utilizada pelo sistema.

É quase como se tivéssemos deslocado virtualmente o nosso rádio até à entrada da rede D-STAR.

Continuamos a seleccionar destinos, repetidores ou reflectores e continuamos a fazer uma comunicação D-STAR normal do ponto de vista do operador, mas a primeira etapa deixou de ser uma ligação RF.

Esta distinção é importante: Terminal Mode não transforma o IC-705 num hotspot.

O IC-705 é, neste caso, o próprio terminal.

Access Point Mode: agora o IC-705 passa a ser a porta de entrada

No Access Point Mode, a situação muda.

Agora utilizamos outro rádio D-STAR para falar por RF com o IC-705. Este recebe essa comunicação e encaminha-a para a rede através da Internet.

O percurso passa a ser:

Rádio D-STAR → RF → IC-705 → Internet → rede D-STAR → destino

Aqui sim, o IC-705 desempenha uma função bastante semelhante àquilo que normalmente associamos a um hotspot.

Podemos, por exemplo, ter um portátil D-STAR connosco e deixar o IC-705 a funcionar como Access Point. O portátil comunica por RF numa frequência simplex com o 705 e este fornece-lhe acesso à rede D-STAR.

Na prática criámos um pequeno ponto de acesso D-STAR privado.

É fácil perceber a diferença olhando apenas para quem utilizamos para falar:

Terminal ModeAccess Point Mode
Rádio onde falamosIC-705Outro rádio D-STAR
Ligação RF localNãoSim
Papel do IC-705Terminal D-STARPonto de acesso
Segundo rádio necessárioNãoSim
Internet necessáriaSimSim

Então para que serve o Terminal Mode?

Imagine-se numa casa onde não chega qualquer repetidor D-STAR.

Temos Internet, temos o IC-705, mas nenhuma infraestrutura D-STAR alcançável por rádio.

Tradicionalmente precisaríamos de instalar um hotspot — um pequeno equipamento composto normalmente por um modem digital, algum tipo de computador ou controlador e uma ligação Internet.

Com o Terminal Mode, para determinadas utilizações, podemos dispensar esse elemento intermédio.

O IC-705 já contém a electrónica necessária para codificar e descodificar D-STAR e pode funcionar como terminal da própria rede.

Isto torna-se particularmente interessante num rádio como o IC-705, pensado desde a origem para utilização portátil. Podemos levá-lo para outra casa, para um hotel ou para um local temporário e continuar a aceder ao D-STAR mesmo que não haja qualquer repetidor da rede nas proximidades.

E para que serve então o Access Point Mode?

O Access Point Mode resolve um problema diferente.

Suponhamos que queremos andar pela casa com um pequeno portátil D-STAR.

O IC-705 pode ficar ligado à Internet e funcionar como ponto de entrada para esse portátil.

O percurso seria, por exemplo:

ID-52 → 430 MHz simplex → IC-705 → Internet → D-STAR

Nesse cenário já existe RF local, mas não estamos a utilizar um repetidor.

Criámos nós próprios o nosso pequeno acesso à rede.

É também por isso que devemos ter atenção às frequências utilizadas e às regras aplicáveis à emissão: no Access Point Mode existe efectivamente uma transmissão radioeléctrica entre dois equipamentos.

Terminal Mode, Access Point ou hotspot?

É provavelmente a pergunta mais interessante.

Se Terminal Mode e Access Point Mode permitem fazer isto, porque razão existem tantos hotspots D-STAR?

Porque as soluções não são exactamente equivalentes.

Um hotspot dedicado pode ficar permanentemente ligado, consumir pouca energia, suportar várias redes digitais e libertar o rádio principal para outras utilizações. Dependendo do equipamento, pode ainda oferecer DMR, YSF, P25, NXDN ou outras redes além de D-STAR.

O IC-705, pelo contrário, é um transceptor completo que ocasionalmente pode assumir estas funções.

Terminal Mode é especialmente elegante quando queremos utilizar o próprio 705.

Access Point Mode é interessante quando queremos transformar temporariamente o 705 no acesso de outro rádio.

Um hotspot continua provavelmente a ser a solução mais cómoda para uma estação permanentemente ligada 24 horas por dia.

Não há uma solução “melhor”. Há arquitecturas diferentes para necessidades diferentes.

Uma particularidade importante: a Internet não substitui o D-STAR

Pode parecer uma distinção filosófica, mas tecnicamente é importante.

Quando utilizamos Terminal Mode não estamos a fazer uma chamada de voz pela Internet como no WhatsApp, Zoom ou numa aplicação VoIP.

A comunicação continua a ser D-STAR.

O áudio continua a ser tratado segundo o sistema DV e entra na infraestrutura D-STAR. O que mudou foi apenas o meio utilizado para chegar ao gateway.

É precisamente isto que torna o conceito interessante: RF e Internet deixam de ser duas redes separadas e passam a ser dois caminhos possíveis para entrar no mesmo sistema.

Um teste real: IC-705 directamente no XLX267

Enquanto actualizava o meu reflector XLX267 surgiu uma oportunidade perfeita para experimentar esta arquitectura.

O XLX267 tinha sido recompilado para permitir todos os 26 módulos, de A a Z, e precisava de confirmar se um dos módulos mais altos estava efectivamente operacional.

Escolhi o módulo Z.

Em vez de procurar um repetidor ou configurar um hotspot, coloquei o IC-705 em Terminal Mode e liguei-me directamente ao:

XLX267 Z

No servidor apareceu imediatamente:

Presence from ... as CT1EBQ on terminal CT1EBQ H
Config request ... for XLX267 Z
Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

E no XML gerado pelo reflector:

<NODE>
    <Callsign>CT1EBQ  H</Callsign>
    <LinkedModule>Z</LinkedModule>
    <Protocol>Terminal/AP</Protocol>
</NODE>

Mais interessante ainda, depois de transmitir, o reflector registou também a estação:

<Callsign>CT1EBQ / 705</Callsign>

Era exactamente aquilo que queria observar.

Do lado do rádio estava simplesmente a utilizar o IC-705. Do lado do reflector, porém, era possível ver claramente que a ligação tinha chegado através do mecanismo Terminal/AP, directamente ao módulo Z.

E o Z apareceu imediatamente no dashboard do XLX267.

Há, contudo, uma pequena armadilha

Aqui começa uma segunda história.

Configurar o Terminal Mode no IC-705 não é tão intuitivo como a descrição anterior pode fazer parecer.

Advanced Manual explica o processo, mas existem alguns passos cuja formulação temos praticamente de interpretar à letra. Quando tentamos aplicar aquilo que intuitivamente pensamos que a Icom quis dizer, podemos acabar com uma configuração aparentemente correcta que simplesmente não estabelece a ligação como esperamos.

Foi precisamente isso que me levou a explorar com mais atenção a configuração.

E merece um artigo separado.

Nesse próximo texto quero fazer exactamente o contrário deste: em vez de explicar o que é Terminal Mode, vamos pegar no IC-705, abrir o Advanced Manual e configurar tudo, passo a passo, menu a menu, até vermos no servidor:

Opening stream on module Z...

Porque há coisas que se compreendem muito melhor depois de as vermos funcionar.

Então, afinal, qual escolher?

A regra mental que utilizo agora é extremamente simples:

Quero falar no próprio IC-705? → Terminal Mode.

Quero falar noutro rádio através do IC-705? → Access Point Mode.

Quero uma infraestrutura permanente e independente do meu rádio principal? → Hotspot dedicado.

Depois desta distinção, aquilo que inicialmente parece uma floresta de modos e opções fica bastante mais claro.

E talvez seja esta uma das características mais interessantes do D-STAR: podemos entrar na mesma rede por um repetidor a dezenas de quilómetros, por um pequeno hotspot em cima da secretária ou directamente através de um rádio como o IC-705 ligado à Internet.

Os caminhos são diferentes.

A rede, porém, continua a ser a mesma.

73,

Ricardo Oitavén — CT1EBQ

XLX267 — de um reflector D-STAR a um pequeno laboratório digital

O XLX267 nasceu como um reflector relativamente simples, com alguns módulos destinados a conversação internacional, regional e nacional e uma interligação a outros sistemas. Com o passar do tempo, porém, o D-STAR deixou de ser apenas uma rede de repetidores e reflectores. Hoje temos hotspots, Terminal Mode, Access Point Mode, interligações entre redes, gateways e cada vez mais possibilidades de experimentação.

Foi por isso que decidi actualizar o XLX267 e abrir todos os 26 módulos possíveis, de A a Z.

A alteração foi relativamente pequena no código do XLXD, mas muda bastante aquilo que podemos fazer com o reflector. O servidor passou a trabalhar com:

#define NB_OF_MODULES 26

Depois da recompilação e instalação do XLXD 2.5.3, fiz o teste mais simples e também o mais conclusivo: liguei o meu Icom IC-705 em Terminal Mode directamente ao XLX267, módulo Z.

O servidor respondeu:

Config request ... for XLX267 Z
Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

e o próprio XML do reflector passou a mostrar:

<Callsign>CT1EBQ  H</Callsign>
<LinkedModule>Z</LinkedModule>
<Protocol>Terminal/AP</Protocol>

Ou seja: não era apenas uma alteração teórica na configuração. O módulo Z estava efectivamente operacional e a transportar tráfego D-STAR.

Mas para que queremos 26 módulos?

A resposta curta é: não queremos necessariamente usar os 26.

Criar vinte e seis salas vazias só porque estão disponíveis não teria grande interesse. A ideia é antes atribuir aos módulos uma lógica que torne o XLX267 fácil de compreender e, sobretudo, útil para experimentação.

A primeira proposta ficou assim:

$PageOptions['ModuleNames']['A'] = 'International';
$PageOptions['ModuleNames']['B'] = 'Regional';
$PageOptions['ModuleNames']['C'] = 'Portugal';
$PageOptions['ModuleNames']['D'] = 'Digital Lab';
$PageOptions['ModuleNames']['E'] = 'REF095C via XLX268';

$PageOptions['ModuleNames']['F'] = 'D-Star International';
$PageOptions['ModuleNames']['G'] = 'Gateways / Hotspots';
$PageOptions['ModuleNames']['H'] = 'Emergency';
$PageOptions['ModuleNames']['I'] = 'Digital / APRS';
$PageOptions['ModuleNames']['J'] = 'Nets';

$PageOptions['ModuleNames']['T'] = 'Terminal / AP';
$PageOptions['ModuleNames']['X'] = 'Experimental';
$PageOptions['ModuleNames']['Z'] = 'Test';

Os restantes ficam deliberadamente livres.

Não há vantagem em decidir hoje o que fazer com K, L, M ou Y. Se surgir uma necessidade interessante amanhã, haverá espaço para ela.

Alguns módulos com personalidade própria

Há quatro que me parecem particularmente interessantes.

D — Digital Lab

Um espaço para experiências com D-STAR, hotspots, gateways, bridges e novos equipamentos sem perturbar os módulos destinados a conversação normal.

T — Terminal / AP

Este nasceu quase naturalmente das experiências que tenho feito com os rádios Icom.

O Terminal Mode permite que equipamentos como o IC-705 ou outros Icom compatíveis comuniquem com a rede D-STAR através da Internet sem ser necessário chegar por RF a um repetidor. O Access Point Mode permite ainda utilizar o rádio como ponto de acesso para outro equipamento D-STAR.

Ter um módulo explicitamente dedicado a este tipo de experiências pareceu-me bastante lógico.

X — Experimental

O verdadeiro laboratório.

Interligações temporárias, testes de protocolos, gateways, software novo ou qualquer experiência que ainda não saibamos muito bem onde encaixar.

Z — Test

Uma espécie de carga fictícia virtual.

Queremos verificar se um hotspot está correctamente configurado? Se o Terminal Mode chega ao reflector? Se um gateway consegue estabelecer ligação?

Liga-se ao Z e experimenta-se.

Curiosamente, foi também o primeiro módulo novo que utilizei depois da alteração para A–Z.

Os módulos que já existiam

Algumas funções anteriores permanecem.

O módulo A continua vocacionado para contactos internacionais, B para utilização regional e C para Portugal.

O módulo E mantém uma interligação com o XLX268, através da qual existe acesso ao REF095C.

Uma das vantagens da arquitectura XLX é precisamente esta possibilidade de fazer de determinado módulo uma porta para outro reflector ou rede sem transformar todo o sistema numa única sala gigantesca.

E o dashboard?

Outra curiosidade surgiu durante a alteração.

O dashboard não tem uma lista fixa A–Z. Ele pergunta ao reflector quais os módulos onde existem nós ligados:

$Modules = $Reflector->GetModules();

Por isso um módulo vazio nem sequer aparece necessariamente na página.

Quando liguei o IC-705 ao módulo Z, o dashboard passou imediatamente a mostrar Z.

É uma solução simples e elegante: os módulos existem no reflector, mas a interface só mostra aquilo que nesse momento está a ser utilizado.

Uma pequena infraestrutura para experimentar

É talvez esta a parte que mais me interessa no projecto.

Não pretendo transformar o XLX267 num enorme reflector mundial cheio de utilizadores. Existem outros muito maiores para isso.

Interessa-me mais que seja um pequeno espaço técnico onde possamos experimentar.

D-STAR por RF.

D-STAR por Internet.

Terminal Mode.

Access Point Mode.

Hotspots.

Gateways.

Interlinks.

E aquilo que ainda aparecer nos próximos anos.

Tal como acontece tantas vezes no radioamadorismo, o interesse não está apenas em conseguir estabelecer a comunicação.

Está também em perceber como ela funciona.

O XLX267 está disponível em:

http://xlx.ct1ebq.com

73,

Ricardo Oitavén — CT1EBQ

pi-star +GUI, packet e aplicações desktop

Este bem poderia ser o primeiro post do site já que, daqui fui construindo todos os outros projectos...

Há uns meses atrás comecei este projecto. Sempre fui adepto de "all in one", nas impressoras, nos rádios, nos gadgets, até nos canivetes suíços! Compreendo quem prefira um rádio para HF, outro para VHF e UHF, mas eu gosto deles com tudo!
Este projecto é para os que gostam de "tudo na mesma caixa"!

Há uns meses, nem sabia o que era um Raspberry Pi até que me rendi... comprei um zero com wireless, experimentei o 3B + e depois comprei um 4. Foi com o mesmo entusiasmo com que recebi o meu ZX81 ou o Spectrum em 1982, mas com tecnologia mais recente e capaz de um projecto deste tipo!
- Era o computador que faltava na minha estação de rádio! Sem ventoinhas, logo sem barulho, a 5V ou facilmente alimentado a partir de 12V e, o Raspberry 4 com uma capacidade de processamento suficiente para correr um sem número de aplicações em simultâneo! Estas características maravilharam-me...

Tudo começou quando adquiri o meu rádio D-Star, instalei num Pi zero W o software pi-star, num computador antigo a correr linux, apenas linha de comandos, o linbpq para packet e APRS e depois precisava de outro brincar com modos digitais...
Eram muitos computadores, todos ligados, a consumir energia 24 horas por dia! Não, tinha de haver outra solução.
A solução passava por um computador, todos os sistemas e software a correr ali...
Pretendia ainda uma solução alimentada a 12V, de modo a poder alimenta-lo a baterias e criar sistemas de alimentação redundante.

A solução era mesmo um Raspberry Pi!

Fiz teste num 3B + de um amigo. Percebi que tinha de instalar primeiro o pi-star, a última versão "buster" do debian, disponível para download no site deste excelente projeto.
O pi-star tem uma excelente característica, depois do arranque o sistema entra em modo read-only, e apesar de o podermos pôr em read-write, tudo está feito para que volte a read-only no instante seguinte! Era um quebra cabeças e o primeiro problema a resolver! Todos os posts anteriores foram o caminho a percorrer para chegar até aqui e resumem a minha experiência em Pi.

Se quiser ter os modos digitais, o propósito de ter instalado o core do pi-star, terá de adquirir uma pequena placa de RF, chamada MMDVM hotspot. Encontra-se facilmente no eBay e a minha custou cerca de 15€ mais despesas de envio.

As instruções seguintes mostra como o fazer.

No final deste projecto, com algumas horas e muita paciência, fica com um Raspberry Pi (recomendo o 4, com 2 ou mais Gb de RAM) com,

pi-star, para modos digitais (D-Star, DMR, YSF...)
packet e APRS no linbpq + (Hamlib, Direwolf, Xastir, Linpac)
recepção de WSPR com uma simples RTL-SDR v3
FLRig e FLDigi
WSJT-X
JTDX
GridTracker (Display connections on a map)
JS8CALL
CQRLOG + TQSL (Advanced Ham Radio Logbook)
GPredict (Sat-Tracking)
QSSTV (Slow Scan Televison)
GQRX (SDR)
FreeDV (Digital Voice)
VOACAP (Propagation Prediction)
Chirp (Programming transceivers)
Qtel (Echolink Client)
WSPR with RTL-SDR v3
VNC server para acesso externo (tablet, telefone ou computador)

Que tal? 🙂

Instruções

Não há fórmulas mágicas, os bons projecto levam tempo!
Precisa tempo e paciência, sobre tudo se não tem muita experiência com sistemas operativos linux em linha de comandos. No entanto tentei tanto neste como nos posts anteriores criar instruções para que fosse apenas copiar e colar...
Neste projecto, e porque não sou o autor de tudo, deixo links para outros sites, para os siga e instale tudo pela ordem que sugiro.

Comecemos por instalar o pi-star

Faça o download e siga as instruções para o seu sistema operativo.
A instalação do pi-star não é opcional já que este projecto se baseia nele, que inclui o último sistema operativo "buster" à data em que escrevo este artigo.

Depois vamos instalar o interface gráfico GUI. Sim, vai ter uma consola gráfica, mas toda a instalação corre praticamente em linha de comandos.

Depois de instalado o pi-star, identifique a sua versão. Terá de habilitar o SSH, configurar o acesso à network ou, ligar um monitor, teclado e rato. Abra uma janela terminal, ou aceda por SSH e faça,

...dá-lhe algumas informações sobre a versão, processador e hardware
Para conhecer qual o sistema operativo, pelo nome que conhecemos digite,

PRETTY_NAME="Raspbian GNU/Linux 10 (buster)"
NAME="Raspbian GNU/Linux"
VERSION_ID="10"
VERSION="10 (buster)"
VERSION_CODENAME=buster
ID=raspbian
ID_LIKE=debian
HOME_URL="http://www.raspbian.org/"
SUPPORT_URL="http://www.raspbian.org/RaspbianForums"
BUG_REPORT_URL="http://www.raspbian.org/RaspbianBugs"

ou, digite o comando "lsb_release -a".
Actualize agora o seu sistema já instalado,

O pi-star, foi desenhado com propósito único, e será necessário instalar diversos componentes: software, plugins de terceiros e livrarias de código; de modo a dotá-lo de todo o software para o nosso projecto.

Instale a componente de configuração do Raspberry Pi, que facilitará muito qualquer configuração de rede, hardware, serviços, etc...

Ambiente gráfico de janelas

Agora vamos instalar o X ou interface gráfico GUI. Passo simples. Depois já terá acesso ao sistema pelo interface gráfico de janelas que lhe será mais familiar...

A partir deste momento, pode aceder já por teclado e rato, ligando um monitor à porta HDMI do Pi.
Habilite o VNC, para lhe permitir aceder remotamente, se não pretender como eu, ligar o monitor. Na linha de comandos ainda, faça,

7 Advanced Options
A5 Resolution
…seleccione o modo à sua escolha, no meu caso escolhi uma das configurações 16:9
Faça "Ok", "Ok" de novo, "Finish", "Yes" vamos fazer um reboot…

Agora já se pode ligar por VNC.
Antes de fazer reboot, pode também habilitar o "auto-login" no sistema de janelas. Volte ao "raspi-config" e siga os menus "Boot option"->"Desktop / CLI"->"Desktop autologin".
Algumas instruções que li sugeriram também instalar o xinit. Considere-o para já como opção,

Para conhecer o endereço IP do seu Pi, faça

Identifique a sua ligação de rede, instale o VNC Desktop no seu computador e já pode aceder confortavelmente ao seu Pi, pelo sistema gráfico de janelas.
Note que, a partir do momento que tem acesso ao interface gráfico pode abrir ali uma janela terminal e executar todos os comandos que se seguem...
Eu continuo ligado por SSH.

Porque o pi-star é muito robusto, quase à prova de desligar a alimentação quando e sempre que quiser sem qualquer cuidado em particular, tem também um firewall onde é preciso permitir o acesso externo. Nada complicado. Crie o ficheiro ipv4.fw que será lido pelo sistema e adicione estas regras ao iptables, firewall linux,

Grave, CTRL + x, "yes" e volte à linha de comandos.

Nota: esta lista de regras tem sido actualizada ao longo do projecto embora nem sempre seja referido nos diversos posts. Sempre que uma aplicação ou serviço necessita de comunicar para fora, ou receber dados, temos de abrir a porta respectiva!

Configurei já as portas 5900 e 5901 para acesso por VNC, a 8010 para acesso por telnet ao linbpq, a 9123 o acesso web à consola do linbpq e a 10093 para transferência de mensagens entre nodes, também para o linbpq.
Para aplicar estas regras,

Configurar o pi-star em mode read-write permanente

Descobrir onde o pi-star re-escrevia as instruções de read-write para read-only deu algum trabalho, muitos ficheiros abertos e re-escritos, novas instalações, pesquisas na web, frustração e umas boas horas. Vamos começar.

Temos de substituir todas as instruções que montam o sistema como leitura apenas, para leitura e escrita, isto é de "ro /" por "rw /".
Comecemos pelas regras na montagem das partições,

Igualmente importante, edite o ficheiro /etc/rc.local e comente com "#" a última linha onde aparece a expressão,

ou melhor, não a comente e altere-a para,

na directoria /var/www, fazemos o login como root,

Verificamos quantas entradas existem, com o user root,

Trocamos todos os "ro /" por "rw /". Para evitar erros copie a seguinte expressão como root,

E, verificamos que já não existe nenhum "ro /" por substituir. O output deve ser vazio!

"exit" sai do user root.
Em cada actualização do pi-star bem sucedida devemos correr estes 3 últimos comandos "find..."! É natural que, durante o update surjam mensagens como: "os seguintes ficheiros foram modificados..." Ignore e, volte a fazer os procedimentos descritos anteriormente.

Vamos editar ainda os seguintes ficheiros e substituir todas as entradas de "ro /" por "rw /"

Renomear os seguintes ficheiros, por exemplo para _[ficheiro]

Existem mais alguns ficheiros encontrados em /usr/local/sbin, /usr/sbin e /usr/bin mas não detectei nada que provocasse o sistema a voltar a read-only.

Notas:
1. Ao tentar actualizar agora o pi-star deve aparecer-lhe uma mensagem com esta,

Starting Services…
Done
Updates complete, sleeping for a few seconds before making the disk Read-Only
mount: /: mount point is busy.
Finished

O que é normal visto que o sistema é read-write. Não há problema.

2. Recentemente dei que o meu raspberry entrava em modo "halt" todas as noites à hora que executava o cron.daily
O problema manifestava-se quando corria no script "powersave" a instrução "tvservice -o" que desliga o port HDMI. Desabilite esta linha, editando o ficheiro /etc/cron.daily/powersave e comentando a instrução com "#",
#/opt/vc/bin/tvservice -o

Instalação de modos digitais em ambiente gráfico

Quer ter uma estação de rádio digital completa no seu raspberry pi?
Prossiga agora para o artigo - https://dl1gkk.com/setup-raspberry-pi-for-ham-radio/

Instalou tudo? Fantástico!

Instalação de Packet AX.25 e APRS com linbpq

Siga os meus posts anteriores, instale e configure de acordo com as suas preferências, o seu indicativo, o QRA locator, etc...

packet/APRS iGate, BBS, node e DX cluster com Raspberry Pi (parte 2)
packet/APRS iGate, BBS, node e DX cluster com Raspberry Pi (parte 3)
packet/APRS iGate, BBS, node e DX cluster com Raspberry Pi (parte 4)
packet/APRS iGate, BBS, node e DX cluster com Raspberry Pi (parte 5)
Mapas de APRS em BPQ32

Opcional

Acesso linux a partir do linbpq
Direwolf AX.25 + FEC = FX.25 (para quem pretende explorar o HF)
Monitor de WSPR com raspberry pi + dongle RTL-SDR

Veja também

Solução de problemas com a placa de som CM108
Como criar Menus no Gnome para o raspberry pi

...aspecto final


Referências:
https://gist.github.com/kmpm/8e535a12a45a32f6d36cf26c7c6cef51
https://forum.pistar.uk/viewtopic.php?t=1237&start=10
https://forum.pistar.uk/viewtopic.php?t=858

Referências avançadas:
https://hallard.me/raspberry-pi-read-only/
https://gist.github.com/paulfurley/8e2e2ead269d81d6c41604233a696acd
https://medium.com/@andreas.schallwig/how-to-make-your-raspberry-pi-file-system-read-only-raspbian-stretch-80c0f7be7353
https://github.com/km4ack/pi-build
https://forum.pistar.uk/viewtopic.php?f=3&t=2059&start=40

Envio de localização GPS com o TH-D74 através de hotspot

Esta versão, desenvolvida pelo G4KLX, possibilita entre muitas outras funcionalidades a partilha de geolocalização, utilizando o módulo mais recente do ircddbgateway no pi-star.

Se tem um TH-D74E e gostava que os seus dados de GPS fossem enviados para aprs.fi, apenas precisa de instalar e executar a versão mais recente do ircDDB Gateway disponível em https://github.com/g4klx/ircDDBGateway e configurar o rádio, menu 630 (GPS Info in Frame) para "On". As opções "Sentence" (menu 631) devem ser as de origem - $GPGGA e $GPRMC. O menu 632 (Auto TX) deve ficar desligado, em "Off".

Esta versão do gateway ircDDB, permite que o D-Star Repeater faça interface com o roteamento do indicativo através do ircDDB e de todos os diferentes tipos de refletores. Inclui muitas funcionalidades, tais como:

  • suporta Icom stacks
  • suporta repetidores de construção caseira
  • Icom DD mode em Linux através da internet
  • roteamento de indicativo de chamada via ircDDB
  • refletores D-Plus REF
  • refletores DExtra XRF
  • refletores DCS
  • refletores XLX
  • roteamento CCS7
  • transferências de dados D-RATS
  • gateway DPRS dados para APRS-IS
  • anúncios multi-idiomas de texto e voz
  • controle de chamada DTMF ou UR
  • interface de controle remoto
  • servidor StarNet

E a capacidade de definir políticas para o uso de refletores.

Faça o download em ZIP, descomprima por exemplo em /tmp, habilite o modo de leitura e escrita com "rpi-rw" e compile de acordo com as instruções na própria página. Se não necessitar de interface gráfico ignore as linhas referidas nestas instruções. Seja paciente, pois a compilação pode tardar entre 20 minutos a 3 horas no caso do raspberry pi zero.

Outras referências:
Facebook Kenwood TH-D74 group
https://www.f4fxl.org/compile-and-install-the-latest-ircddbgateway-in-pi-star/
https://www.f4fxl.org/compile-and-install-the-latest-dstarrepeater-in-pi-star/

Mensagens de texto e imagem em D-Star

Questionava-me se seria possível enviar e receber mensagens de texto e por que não imagem em D-Star?

Em texto percebi que sim, pela leitura das instruções do meu HT da Kenwood. Então imagem também faria sentido! Era uma questão da quantidade de bytes a transferir, já que o canal é digital!…

…e existe! Não é da Kenwood, mas da Icom, para transceptores Icom e compatíveis. Possível desde que seja possível ligar o seu dispositivo Android por cabo ou bluetooth, em modo data.

A aplicação chama-se RS-MS1A e está disponível na play store

O RS-MS1A é uma APP que permite que o dispositivo Android use remotamente as funções do modo D-STAR em DV e algumas funções DR em transceptores D-STAR.

Funcionalidades:

  • envio e recepção de mensagens de texto, voz e imagens
  • ver a localização de repetidores ou estações de amador através dos dados de posicionamento
  • listas de repetidores
  • ler e editar as informações de uma estação recebida
  • permite fazer o download de informações adicionais, como qrz.com ou aprs.fi
  • interagir com algumas das configurações to transceptor
  • exportar lista de repetidores, e o histórico de beacons recebidos

Notem que, nem todas estas funcionalidades estão disponíveis em todos os transceptores. No TH-D74 da Kenwood, aquelas que realmente me interessavam - transmissão de mensagens de texto e imagens funciona na perfeição!