Pequenos segredos do Icom IC-705

Aquilo que só descobrimos quando começamos realmente a usá-lo

Há rádios que conhecemos em poucas horas. Descobrimos os menus, programamos algumas memórias, ajustamos filtros e, passado pouco tempo, já sabemos praticamente tudo o que têm para oferecer. O Icom IC-705 não é um desses rádios.

À primeira vista é fácil defini-lo: um transceptor portátil de HF, 50, 144 e 430 MHz, multimodo, com D-STAR, GPS, Bluetooth e Wi-Fi. Mas esta descrição diz muito pouco acerca do que realmente está lá dentro. À medida que o fui configurando encontrei pequenas funcionalidades que não estão propriamente escondidas — muitas encontram-se nos manuais — mas cuja verdadeira utilidade só percebemos quando começamos a utilizá-las.

Algumas alteram mesmo a forma como pensamos o rádio. É dessas pequenas descobertas que trata este artigo.


1. Afinal, o IC-705 tem duas arquitecturas de recepção dentro da mesma caixa

Comecemos por algo que não se vê em nenhum menu. Até aos 24,999999 MHz, o IC-705 utiliza RF Direct Sampling: o sinal de RF é convertido directamente em dados digitais pelo ADC e processado posteriormente. A partir dos 25 MHz, incluindo portanto 6 m, 2 m e 70 cm, passa a utilizar Down Conversion IF Sampling, com uma frequência intermédia de 38,85 MHz.

Quer isto dizer que aquele pequeno rádio utiliza duas arquitecturas de recepção diferentes, partilhando depois grande parte do processamento e, naturalmente, a mesma interface de utilização.

Não muda a maneira como o operamos, mas ajuda a perceber por que razão determinadas características, sinais espúrios ou comportamentos de recepção podem não ser exactamente iguais em HF e em VHF/UHF.

No manual: Service Manual → Section 1 → Specifications → Receiver.

Abaixo de 25 MHz:
Antena → ADC → processamento digital

A partir de 25 MHz:
Antena → conversão / IF 38,85 MHz → ADC → processamento digital


2. Sim, podemos ligar AirPods directamente ao IC-705 — incluindo o microfone

Esta foi uma das descobertas que mais me surpreendeu. O IC-705 permite emparelhar um headset Bluetooth e encaminhar por ele o áudio. A surpresa está em verificar que os Apple AirPods podem funcionar como verdadeiro headset do rádio: ouvimos através deles e utilizamos também o microfone dos próprios AirPods para transmitir.

No meu caso ficou inclusivamente confirmado o funcionamento com VOX e através do Monitor, permitindo verificar o caminho de áudio nos dois sentidos.

Para emparelhar, colocamos primeiro os AirPods em modo de emparelhamento. Nos modelos cuja caixa não possui botão físico, abro a tampa e dou dois toques na parte frontal, ao centro, até entrarem em pairing. Depois, no IC-705:

MENU → SET → Bluetooth Set → Pairing/Connect → Device Search → Search Headset

Escolhemos os AirPods na lista e estabelecemos a ligação. Com Auto Connect activo, o 705 volta posteriormente a ligar-se automaticamente ao último dispositivo Bluetooth utilizado.

Convém salientar que isto é uma experiência prática com os AirPods que testei. A Icom documenta a possibilidade de utilizar headsets Bluetooth, mas não garante necessariamente todos os modelos de terceiros.

No manual: Advanced Manual → Chapter 10, Bluetooth Operation → Connecting to a Bluetooth headset.

Imagem sugerida: fotografia do IC-705 no ecrã PAIRING/CONNECT, com os AirPods ao lado.


3. O IC-705 não memoriza apenas uma rede Wi-Fi. Guarda até sete

Esta é daquelas pequenas informações que facilmente passam despercebidas — e que entretanto pude também confirmar na prática.

Depois de o IC-705 se ligar a uma rede Wi-Fi, guarda os respectivos dados. Pode conservar até sete Access Points anteriormente utilizados e volta a ligar-se ao último quando o rádio é novamente iniciado. Ao estabelecer ligação a um oitavo Access Point, a entrada mais antiga é eliminada.

Na prática, podemos ter memorizadas, por exemplo, a rede de casa, a rede da estação, um hotspot do iPhone, um router portátil e outras redes que utilizemos regularmente. Não precisamos de estar constantemente a introduzir SSID e palavra-passe.

Para ligar a uma nova rede:

MENU → SET → WLAN Set → Connection Settings → Access Point

Escolhemos a rede, introduzimos a palavra-passe e seleccionamos Connect.

Existe uma limitação importante: o IC-705 liga-se a redes Wi-Fi de 2,4 GHz, não a uma WLAN exclusivamente de 5 GHz.

No manual: Advanced Manual → Chapter 11, Wireless LAN Operation → Connecting to a Wireless Access Point.

Imagem sugerida: o ecrã Access Point do nosso próprio rádio com várias redes já memorizadas.


4. Há dois “Access Point Mode” — e são coisas completamente diferentes

A nomenclatura escolhida pela Icom pode aqui provocar alguma confusão, porque existem duas funcionalidades chamadas Access Point.

Há um WLAN Access Point Mode, em que o próprio IC-705 cria uma rede Wi-Fi à qual ligamos um computador ou dispositivo móvel, e há um D-STAR Access Point Mode, em que o IC-705 funciona como porta de entrada para outro transceptor D-STAR através de RF.

Em resumo:

WLAN Access Point
Computador / telemóvel ⇄ Wi-Fi ⇄ IC-705

D-STAR Access Point
Outro rádio D-STAR ⇄ RF ⇄ IC-705 ⇄ Internet ⇄ D-STAR

O WLAN Access Point Mode foi uma das funcionalidades acrescentadas pela Icom através do firmware 1.20, juntamente com os Presets destinados inicialmente a facilitar a operação FT8.

Consultar firmware e actualizações do IC-705 na Icom


5. Terminal Mode: fazer D-STAR sem transmitir RF

No Terminal Mode, o próprio IC-705 transforma-se no nosso terminal D-STAR através da Internet. Falamos para o rádio, utilizamos o PTT e fazemos a comunicação normalmente, mas o sinal não é transmitido pela antena.

É uma função extraordinariamente útil quando estamos num hotel, apartamento, casa de férias ou qualquer outro local onde exista Internet mas não tenhamos um repetidor D-STAR acessível.

Depois de configurada a ligação à Internet e o Internal Gateway:

MENU 2 → DV GW → <<Terminal Mode>>

O rádio coloca automaticamente vários parâmetros nos valores necessários à operação, incluindo o modo DV e a função DR.

Há um detalhe importante: no Terminal Mode, o IC-705 não transmite nem recebe RF através da antena. A comunicação é efectivamente encaminhada pela Internet.

No manual: Advanced Manual → Chapter 15, About the DV Gateway Function → Terminal Mode Operation.

Imagem sugerida: captura do ecrã DV GATEWAY já em Terminal Mode.


6. Access Point Mode: transformar o IC-705 no nosso pequeno gateway D-STAR

No D-STAR Access Point Mode, a lógica é diferente. Deixamos o IC-705 ligado à Internet e utilizamos outro rádio D-STAR por RF:

Portátil D-STAR ⇄ RF ⇄ IC-705 ⇄ Internet ⇄ rede D-STAR

Assim, o 705 pode ficar num local com boa ligação à Internet enquanto circulamos nas proximidades com um portátil D-STAR. O segundo rádio comunica por RF com o IC-705, que encaminha a comunicação para a rede D-STAR.

No 705:

MENU 2 → DV GW → <<Access Point Mode>>

Definimos depois a frequência que será utilizada para comunicar com o outro transceptor D-STAR. O manual indica ainda que apenas um transceptor D-STAR remoto de cada vez pode aceder através daquele Access Point.

No manual: Advanced Manual → Chapter 15, About the DV Gateway Function → Access Point Mode Operation.

Esquema sugerido: utilizar aqui o mesmo esquema de comparação referido no tópico anterior.


7. As DR Memories não são apenas para D-STAR

O nome pode levar-nos a pensar que a Repeater List existe exclusivamente para D-STAR, mas não é assim. O IC-705 pode guardar até 2500 entradas, distribuídas por até 50 grupos, e aceita quatro tipos de registo:

DV Repeater, DV Simplex, FM Repeater e FM Simplex.

Isto significa que os repetidores analógicos FM podem perfeitamente fazer parte desta base de dados. Para cada repetidor podemos guardar frequência, duplex, offset, tone e, muito importante, a sua posição geográfica.

Quando seleccionamos um repetidor FM na Repeater List, o rádio configura automaticamente os parâmetros necessários. Como não existe o conceito de destino D-STAR, o campo TO aparece simplesmente como ---.

No manual: Advanced Manual → Chapter 14, D-STAR Operation (Advanced) → Repeater List.


8. O GPS pode dizer-nos quais são os repetidores mais próximos

É aqui que as coordenadas guardadas na Repeater List começam realmente a fazer sentido.

O GPS interno diz ao IC-705 onde estamos. Se tivermos introduzido também a posição dos repetidores, o rádio pode comparar as coordenadas e apresentar-nos os que ficam mais perto.

Em modo DR:

FROM → Near Repeater

Podemos seleccionar:

Near Repeater (ALL) — DV e FM
Near Repeater (DV) — apenas D-STAR
Near Repeater (FM) — apenas analógicos FM

O 705 apresenta até 20 repetidores de cada tipo, mostrando distância e direcção, e considera repetidores dentro de aproximadamente 160 km.

Existe ainda o Near Repeater Scan, que utiliza a mesma informação geográfica para procurar os repetidores próximos que estão activos.

As versões mais recentes do firmware melhoraram também a utilização do Near Repeater, pelo que vale a pena manter o IC-705 actualizado.

Consultar o firmware actual do IC-705 na Icom

No manual: Advanced Manual → Chapter 14 → “FROM” (Access repeater) setting → Using the Near Repeater Search function.

Imagem sugerida: uma captura do Near Repeater em Portugal, de preferência num local onde apareçam vários repetidores e diferentes distâncias.


9. As 300 GPS Memories não são frequências — são pontos geográficos

Esta foi uma das funções que inicialmente me pareceu menos evidente.

As 300 GPS Memories são independentes das 500 memórias normais e também da Repeater List. São, na prática, pontos geográficos ou waypoints. Podem ser organizadas em No Group e nos grupos A a Z, e cada memória pode conter nome, data, hora, latitude, longitude e altitude.

Podemos guardar o nosso QTH, uma cimeira SOTA, um parque POTA, um acampamento, um ponto de encontro, um local de interesse ou até a posição recebida de outra estação.

A partir do ecrã GPS POSITION podemos guardar rapidamente a nossa posição ou a posição de uma estação recebida através de:

Quick Menu → Add To GPS Memory

Depois seleccionamos o grupo onde queremos guardar o ponto.

No manual: Advanced Manual → Chapter 12, GPS Operation → GPS Memory.

500 Memory Channels → frequências e configurações de operação
2500 Repeater List / DR → repetidores/serviços RF, parâmetros e posição
300 GPS Memories → locais e posições, sem frequência associada

Este pequeno esquema evita uma confusão que é muito fácil ter quando começamos a explorar as diferentes memórias do 705.


10. As GPS Memories podem ainda disparar um alarme de proximidade

Os pontos GPS não servem apenas para indicar onde fica determinado local.

O IC-705 possui GPS Alarm, podendo vigiar uma memória específica ou um grupo inteiro e avisar quando um desses pontos entra na área de proximidade definida. Quando a condição é atingida, o rádio apresenta GPS ALARM e emite três sinais sonoros.

A configuração encontra-se em:

MENU → GPS → GPS Alarm

Podemos seleccionar uma Memory, um Group ou todas as GPS Memories e definir a área que fará disparar o alarme.

É fácil imaginar utilizações em operação portátil: aproximação a um local de activação, ponto de encontro, acampamento, localização de determinada estação ou qualquer outro waypoint previamente preparado.

No manual: Advanced Manual → Chapter 12, GPS Operation → GPS Alarm.


11. ★1, ★2 e ★3 não são “favoritos”: são três conjuntos para scan

Quando entramos no ecrã de Scan e tocamos em SELECT, aparecem sucessivamente ★1, ★2, ★3 e depois nenhuma estrela.

Estas marcas permitem criar três grupos transversais de memórias destinados a Select Memory Scan. Uma memória normal pode ser marcada ★1, ★2 ou ★3 e podemos posteriormente mandar o rádio percorrer apenas as memórias pertencentes a um desses conjuntos.

Por exemplo, poderíamos utilizar:

★1 — frequências que monitorizamos habitualmente
★2 — emergência
★3 — balizas ou frequências especiais

Há ainda outra função que não é imediatamente evidente: podemos fazer scan apenas de um dos grupos normais de memória.

No ecrã SCAN:

manter MEMO premido durante 1 segundo → GROUP 00…99

e escolher o grupo pretendido.

Assim, os grupos de memórias deixam de servir apenas para organizar visualmente as frequências; passam também a ser unidades efectivas de scan.

No manual: Advanced Manual → Chapter 8, Scans → Memory Scan / Select Memory Scan.

Imagem sugerida: ecrã mostrando algumas memórias marcadas ★1, ★2 e ★3.


12. Os Presets são muito mais interessantes do que um simples botão para FT8

A função Preset surgiu no firmware 1.20 e a configuração fornecida de origem é destinada ao FT8. A ideia, porém, é mais geral: um Preset permite alterar de uma só vez vários parâmetros relacionados com uma determinada forma de operação.

A Icom permite guardar até cinco Preset Memories. Na documentação actual do IC-705, a marca apresenta precisamente o exemplo de seleccionar [FT8] no menu PRESET e colocar o rádio rapidamente nas condições necessárias para trabalhar esse modo.

Nada nos impede de adaptar outros Presets para diferentes aplicações digitais.

Há, no entanto, uma distinção importante: os Presets são independentes das Memory Channels. Seleccionar uma determinada memória de frequência não chama automaticamente um determinado Preset.

Icom IC-705 — página oficial

Imagem sugerida: ecrã PRESET com FT8 e, se entretanto forem criados, alguns Presets personalizados.


13. O IC-705 descodifica e transmite RTTY sem computador — mas há uma limitação prática

Ao contrário do PSK31, FT8 e muitos outros modos digitais, o IC-705 possui um decoder RTTY interno. Tem ecrã de descodificação, representação FFT de Mark e Space, indicação de sintonia e Twin Peak Filter.

Também dispõe de oito memórias de transmissão RTTY, que podem conter mensagens previamente preparadas. Assim é perfeitamente possível receber RTTY sem computador e transmitir textos predefinidos directamente pelo rádio.

Mas daqui até dizer que podemos confortavelmente fazer um QSO completo em RTTY sem teclado vai uma grande distância.

Para responder a uma estação temos normalmente de introduzir pelo menos o indicativo recebido, podendo ainda ser necessário alterar report, nome ou outra informação. No IC-705 isso implica entrar nas memórias RTTY e editar o texto através do ecrã táctil. Com treino e mensagens muito bem preparadas pode fazer-se; numa conversa normal torna-se pouco prático e lento.

Portanto, a melhor descrição será: o IC-705 é um excelente decoder e transmissor RTTY autónomo, mas um computador ou teclado continua a tornar um QSO real incomparavelmente mais confortável.

Para receber:

RTTY → DECODE

Para trabalhar com as mensagens de transmissão:

DECODE → TX MEM

No manual: Advanced Manual → Chapter 2, Advanced Operations → Operating RTTY (FSK).

Imagem sugerida: RTTY DECODE com um sinal real recebido. Será uma imagem muito mais interessante do que o ecrã vazio.


14. O cartão microSD transforma o IC-705 numa pequena caixa-preta

No IC-705, o cartão microSD está muito longe de servir apenas para guardar configurações. É utilizado para gravação de áudio dos QSOs, memórias de voz, logs RTTY, dados GPS, capturas do ecrã, importação e exportação de dados, cópias de segurança e actualizações de firmware.

Há uma pequena função particularmente útil para quem escreve sobre o rádio: o Screen Capture. Podemos configurar o IC-705 para guardar directamente no cartão uma imagem exacta do LCD.

Curiosamente, a própria Icom refere no Advanced Manual que muitas das imagens de ecrã utilizadas no manual foram obtidas através desta função.

A configuração encontra-se em:

SET → Function → Screen Capture [POWER] Switch

Depois podemos fazer as capturas directamente no rádio, sem fotografar o LCD com uma máquina ou telemóvel.

É precisamente a maneira ideal de obter várias das ilustrações deste artigo.

As versões mais recentes de firmware alargaram ainda o suporte de cartões microSD, pelo que vale a pena consultar as notas da versão instalada no rádio.

Actualizações de firmware do IC-705

No manual: Advanced Manual → Chapter 4, microSD Card; Chapter 9, Other Functions → Screen Capture.


15. O relógio do rádio pode acertar-se sozinho pela Internet

O IC-705 tem GPS, mas possui também suporte para NTP — Network Time Protocol.

Quando ligado à Internet pode contactar um servidor de tempo e sincronizar o relógio interno. A sincronização pode ser automática ou comandada manualmente.

Para forçar o acerto:

SET → Time Set → Date/Time → <<NTP TIME SYNC>>

E para activar ou desactivar a sincronização automática:

SET → Time Set → Date/Time → NTP Function

Pode parecer uma pequena comodidade, mas em modos como FT8, nos logs, nas gravações dos QSOs e em toda a informação que depende de uma hora correcta, é uma função particularmente útil.

Há ainda outro pormenor interessante: não somos obrigados a utilizar o servidor NTP configurado por defeito. Podemos indicar outro servidor.

Em Portugal existe uma zona própria do projecto internacional NTP Pool, pelo que podemos utilizar, por exemplo:

0.pt.pool.ntp.org
1.pt.pool.ntp.org
2.pt.pool.ntp.org
3.pt.pool.ntp.org

Ou, de forma mais genérica:

pt.pool.ntp.org

Não significa que o relógio fique necessariamente “mais certo” do que utilizando um bom servidor internacional. O NTP já foi concebido para compensar o atraso da rede e, para as necessidades de um transceptor, diferenças de poucos milissegundos são irrelevantes.

Há, contudo, alguma lógica em escolher a zona portuguesa: o NTP Pool encaminha-nos para servidores pertencentes ao conjunto português, permitindo normalmente manter a sincronização geograficamente mais próxima, reduzir percursos desnecessários pela Internet e distribuir o tráfego pelos servidores da nossa região. É também uma pequena forma de não concentrar todos os equipamentos nos grandes servidores globais.

Não é obrigatório — e se a zona portuguesa estiver momentaneamente com poucos servidores, a zona europeia europe.pool.ntp.org é uma excelente alternativa.

Mais informação: NTP Pool — servidores em Portugal

No manual: Advanced Manual → Chapter 9, Other Functions → NTP Function.


16. O IC-705 que compramos hoje já não é exactamente o IC-705 lançado em 2020

Este talvez seja um dos “segredos” mais importantes.

O IC-705 foi continuando a receber funcionalidades depois do seu lançamento. O firmware 1.20, por exemplo, acrescentou Presets, WLAN Access Point Mode e outras melhorias. Versões posteriores continuaram a desenvolver WLAN, D-STAR, Near Repeater, gestão do cartão microSD e outras áreas do rádio.

Isto cria uma situação curiosa: o Advanced Manual original é anterior a algumas das funções que hoje encontramos no IC-705.

Daqui resulta uma regra importante: quando procuramos determinada função no Advanced Manual e não a encontramos, convém verificar primeiro o histórico das actualizações antes de concluir que o rádio não a faz.

Icom IC-705 — Firmware e actualizações

Parte do IC-705 que utilizamos hoje simplesmente ainda não existia quando o primeiro Advanced Manual foi escrito.


Uma pequena conclusão

Quanto mais utilizo o IC-705, menos o vejo apenas como uma versão portátil do IC-7300 com VHF e UHF acrescentados. Há ali GPS, rede, Bluetooth, D-STAR, gravação, bases de dados geográficas, operação remota e uma série de pequenos mecanismos que só começam a fazer sentido depois de convivermos algum tempo com o rádio.

Talvez seja precisamente esse o maior “segredo” do 705: muitas das suas melhores características não são necessariamente aquelas que aparecem em letras grandes na brochura. São as pequenas funções que descobrimos quando surge uma necessidade concreta e pensamos:

“Será que ele também consegue fazer isto?”

Com alguma frequência, a resposta é sim.


Documentação oficial

As referências a capítulos e secções feitas ao longo deste artigo correspondem principalmente ao Icom IC-705 Advanced Manual. Optei deliberadamente por indicar capítulo e nome da secção, em vez de depender apenas do número de página, porque a paginação pode variar entre versões e idiomas.

Nota sobre as imagens: salvo indicação em contrário, as fotografias e capturas de ecrã deste artigo serão obtidas no próprio IC-705 utilizado nos testes. Os esquemas explicativos serão originais.

ICOM IC-705 — Terminal Mode na prática: entrar no D-STAR sem passar por um repetidor RF

No artigo anterior procurei explicar o conceito de Terminal Mode e de Access Point Mode no IC-705. Em ambos os casos há algo que, à primeira vista, parece quase estranho num rádio: podemos entrar na rede D-STAR através da Internet, mesmo que não exista qualquer repetidor D-STAR ao nosso alcance por RF. A diferença fundamental é que, em Terminal Mode, é o próprio IC-705 que utilizamos para falar; em Access Point Mode, o 705 funciona como ponto de acesso RF para um segundo rádio D-STAR.

Faltava a parte mais interessante: como se faz isto realmente? Foi precisamente aqui que comecei por complicar uma coisa que, depois de compreendida, é bastante lógica. O Advanced Manual da Icom explica o procedimento, mas algumas frases têm mesmo de ser interpretadas quase à letra. E desta vez tive uma vantagem extraordinária: como administro o XLX267, pude olhar para os logs do servidor e observar exactamente aquilo que o IC-705 estava a fazer do outro lado da Internet.

Antes de começar: o que faz realmente o Terminal Mode?

Numa utilização convencional do D-STAR, o primeiro salto é por rádio. O meu IC-705 transmite em DV para um repetidor próximo; esse repetidor possui um gateway ligado à Internet e é a partir daí que a chamada pode seguir para outro repetidor ou para outro utilizador da rede.

Simplificando:

IC-705 → RF → repetidor D-STAR → gateway → Internet → destino

No Terminal Mode retiramos precisamente esse primeiro salto por RF:

IC-705 → Internet → gateway D-STAR → destino

O rádio continua a tratar o áudio, a codificação DV, o nosso indicativo e o routing D-STAR. O que desaparece é a necessidade de transmitir pela antena para chegar a um repetidor local. O próprio manual é muito claro neste ponto: em Terminal Mode o transceptor não transmite nem recebe sinais RF através da antena.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-2 — “About the DV Gateway function”.

E aqui está uma surpresa importante: Terminal Mode não é “modo reflector”

Esta distinção merece ser feita logo no início porque eu próprio comecei por associar naturalmente Terminal Mode a “ligar o rádio pela Internet a um reflector”. O manual diz algo bastante diferente e muito mais interessante.

Na pág. 15-16, a Icom especifica que em Terminal Mode podemos fazer uma Gateway CQ Call ou uma chamada para uma estação específica através de call sign routing. E acrescenta explicitamente que não podemos efectuar a chamada seleccionando Local CQ ou Reflector.

Isto significa que o Terminal Mode preserva uma das características que considero mais elegantes do D-STAR: não precisamos necessariamente de saber onde está a estação que queremos chamar. Podemos seleccionar o indicativo dessa estação e o sistema de routing D-STAR procura encaminhar a chamada para onde esse indicativo foi registado/ouvido na rede.

Podemos igualmente escolher um repetidor remoto através de Gateway CQ. Portanto, conceptualmente, Terminal Mode não significa “Internet → reflector”; significa antes “Internet → gateway D-STAR”, e a partir daí utilizamos o routing que esse gateway disponibiliza.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-16 — “Operating in the Terminal mode”.

Então, e o XLX267?

Aqui começa precisamente a parte interessante da experiência.

No meu caso estou a utilizar o XLX267 como destino/gateway, e foi através dele que consegui chegar aos seus módulos. Isto não é o mesmo que seleccionar no menu DR a função normal Reflector, que o manual diz não estar disponível em Terminal Mode.

A solução apareceu quando segui literalmente a lógica do manual e utilizei:

TO → Direct Input (RPT)

Introduzindo, por exemplo:

XLX267 E

O “RPT” de Direct Input (RPT) pode induzir-nos a pensar exclusivamente num repetidor físico situado algures, a transmitir numa frequência VHF ou UHF. Mas aqui estamos a construir o routing D-STAR; não estamos a escolher a frequência do primeiro salto RF, porque esse primeiro salto simplesmente não existe.

Foi esta mudança de perspectiva que me fez finalmente compreender a operação.

O IC-705 possui Internal Gateway

Outra característica importante do 705 é que não precisamos obrigatoriamente de colocar um PC ou um telefone Android entre o rádio e a Internet. O IC-705 possui aquilo a que a Icom chama Internal Gateway Function.

Com o rádio ligado à Internet através da sua interface de rede, podemos utilizar directamente Terminal Mode e Access Point Mode. As aplicações RS-MS3W, para Windows, e RS-MS3A, para Android, continuam a ser possíveis através da função External Gateway, sobretudo quando o rádio não pode estabelecer directamente a ligação à Internet, mas não são necessárias na configuração que estou a utilizar.

No meu caso, portanto, o percurso é simplesmente:

IC-705 → Wi-Fi → Internet → gateway D-STAR

Sem computador, sem Raspberry Pi, sem hotspot MMDVM e sem qualquer outro equipamento intermédio.

Referências: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-3 — “When using the External Gateway function”; págs. 15-11 e 15-12 — “When using the Internal Gateway function”.

O que precisamos de preparar

Primeiro, naturalmente, o IC-705 tem de conseguir chegar à Internet. No meu caso utilizo a ligação Wi-Fi do próprio rádio através da rede local.

Depois precisamos de ter o nosso indicativo D-STAR devidamente registado e, além dele, um Terminal/AP Call Sign. O manual chama especial atenção para isto: não basta que o nosso MY Call Sign esteja correcto; o indicativo Terminal/AP também tem de estar registado no gateway.

No meu caso:

MY Call Sign: CT1EBQ

Terminal/AP Call Sign: CT1EBQ H

H não é uma letra que outro radioamador deva simplesmente copiar. É o sufixo que tenho registado para este acesso. A Icom especifica que o Terminal/AP Call Sign tem oito caracteres e que o último é um identificador entre A e Z, com algumas letras reservadas que não devem ser usadas.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-4 — “About the Terminal and Access Point (AP) Call sign”.

Configurar o Internal Gateway

No IC-705 entramos em:

MENU → SET → DV GW → Internal Gateway Settings

É aqui que configuramos os parâmetros necessários ao gateway interno. Entre eles encontramos o endereço do Gateway Repeater (Server IP/Domain), o nosso Terminal/AP Call Sign, o tipo de gateway e a opção UDP Hole Punch.

No Terminal/AP Call Sign coloquei, naturalmente:

CT1EBQ H

Gateway Type, fora do Japão, deve ficar em:

Global

E depois temos o UDP Hole Punch, que merece alguma atenção própria.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-11 — “Setting the Internal Gateway Settings”.

UDP Hole Punch: o que é e porque pode ser necessário

A maioria das nossas redes domésticas está atrás de NAT. O computador, rádio ou telefone possui um endereço IP privado e é o router que mantém a ligação com a Internet. Isto cria uma dificuldade óbvia quando alguém no exterior pretende iniciar tráfego UDP directamente para um equipamento que está dentro da nossa rede.

O mecanismo UDP Hole Punch procura contornar precisamente esta situação. Ao iniciarmos comunicação para o exterior é criada uma associação no NAT do router que permite que a resposta percorra o caminho inverso, sem termos necessariamente de encaminhar manualmente a porta UDP 40000.

No meu IC-705 utilizo:

UDP Hole Punch: ON

Mas esta solução tem uma limitação importante, e o manual explica-a muito bem: o “buraco” criado pelo NAT não permanece aberto indefinidamente. Passados alguns minutos — a Icom indica menos de três minutos, dependendo do router — podemos deixar de conseguir receber uma chamada de retorno até transmitirmos novamente para aquela estação.

Também não devemos entender UDP Hole Punch como substituto universal de um endereço IPv4 público ou de port forwarding. É sobretudo uma forma muito prática de permitir determinadas comunicações Terminal/AP em redes onde não controlamos toda a infraestrutura.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-6 — “About the UDP Hole Punch function”.

Finalmente: colocar o IC-705 em Terminal Mode

Depois de termos a ligação de rede e o Internal Gateway configurados, a entrada em Terminal Mode é extremamente simples:

MENU → DV GW → <<Terminal Mode>>

O rádio muda automaticamente alguns parâmetros: passa para DV, activa a função DR e coloca o nosso próprio indicativo em FROM. A Icom chama ainda a atenção para um detalhe curioso: Terminal Mode não é automaticamente cancelado quando desligamos e voltamos a ligar o transceptor.

No ecrã aparece também o ícone do Internal Gateway, que nos permite perceber se está em standby, a transmitir, a receber ou se existe algum erro de rede ou comunicação.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-15 — “Setting the Terminal mode”.

E agora, para onde queremos falar?

É aqui que o manual esclarece de forma muito interessante aquilo que podemos fazer em Terminal Mode.

Para fazer uma chamada geral através de outro repetidor escolhemos:

TO → Gateway CQ

e depois seleccionamos o grupo e o repetidor de destino.

Para chamar directamente outro radioamador escolhemos:

TO → Your Call Sign

e seleccionamos o indicativo da estação. O routing D-STAR trata depois de procurar o caminho para ela.

Isto é uma diferença conceptual enorme em relação a sistemas onde temos primeiro de descobrir o talkgroup, reflector ou repetidor em que a outra pessoa se encontra. No D-STAR, o indicativo pode ser o próprio endereço da chamada.

Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-16 — “Operating in the Terminal mode”.

O caso especial que experimentei: Direct Input (RPT) e o XLX267

Foi contudo outra possibilidade que me interessou nesta experiência: introduzir directamente o XLX267 como destino.

Em:

TO → Direct Input (RPT)

introduzi inicialmente:

XLX267 E

O módulo E do XLX267 encontra-se interligado ao XLX268, e essa ligação dá-me acesso ao REF095C. Assim, do ponto de vista da experiência, o percurso tornou-se aproximadamente:

IC-705 → Internet → XLX267 E → XLX268 E → REF095C

Há aqui uma distinção importante: no IC-705 eu não seleccionei Reflector → REF095C. Isso seria precisamente a operação que o manual diz não estar disponível em Terminal Mode.

Introduzi um destino através do routing de repetidor/gateway:

XLX267 E

e foi a configuração existente no XLX que tratou posteriormente da interligação.

Esta nuance explica grande parte da confusão inicial.

Uma experiência ainda melhor: XLX267 Z

Entretanto surgiu uma oportunidade perfeita para comprovar tudo isto.

Actualizei o servidor do XLX267 para passar dos dez módulos que tinha disponíveis para os 26 módulos possíveis, de A a Z. Depois de recompilar e instalar o XLXD 2.5.3 precisava de responder a uma pergunta muito simples: será que o módulo Z funciona realmente?

Em vez de montar um hotspot ou procurar um repetidor D-STAR, usei precisamente o Terminal Mode do IC-705.

No rádio:

TO → Direct Input (RPT) → XLX267 Z

Poucos segundos depois apareceu no servidor:

Presence from ... as CT1EBQ on terminal CT1EBQ H

e logo a seguir:

Config request ... for XLX267 Z (repeater)

Carreguei no PTT e o XLXD respondeu:

Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

Quando larguei o PTT:

Closing stream of module Z

Repeti a transmissão várias vezes e o resultado foi sempre o mesmo.

Não havia qualquer dúvida: o IC-705 estava a chegar pela Internet ao XLX267, o reflector reconhecia a ligação como Terminal/AP e abria efectivamente o stream no novo módulo Z.

O que o servidor vê do outro lado

Esta é uma das vantagens de termos acesso ao servidor: podemos ver aquilo que normalmente fica escondido atrás da interface do rádio.

No XML do XLX267 surgiu:

CT1EBQ H

LinkedModule: Z

Protocol: Terminal/AP

E, depois da transmissão, apareceu ainda:

CT1EBQ / 705

Há portanto duas informações diferentes. CT1EBQ H identifica a sessão Terminal/AP através da qual estou ligado ao gateway; CT1EBQ /705 identifica a estação que acabou de transmitir.

Foi também uma bela forma de confirmar que o novo módulo Z do reflector estava verdadeiramente operacional, e não apenas definido no código.

Uma coisa que o manual diz e que vale a pena decorar

Depois desta experiência voltei à pág. 15-16 do Advanced Manual e percebi que esta talvez seja a parte mais importante de toda a secção.

Em Terminal Mode podemos fazer:

Gateway CQ

ou

uma chamada para uma estação específica por call sign routing.

Mas não podemos efectuar a chamada seleccionando:

Local CQ

ou

Reflector

Isto acaba por ser perfeitamente lógico. Local CQ pressupõe uma área RF local e nós não estamos ligados por RF a um repetidor. E a operação normal Reflector do menu DR não é o mecanismo utilizado pelo DV Gateway em Terminal Mode.

O nosso teste com o XLX267 não contradiz esta regra: estamos a apresentar o XLX como um destino de gateway/repeater através de Direct Input (RPT), e é depois o próprio XLX que encaminha o tráfego para o respectivo módulo ou interlink.

Para mim, foi esta peça que finalmente arrumou todo o puzzle.

Terminal Mode e Access Point Mode são muito diferentes

Apesar de aparecerem lado a lado nos menus do IC-705, convém manter a distinção muito clara.

Em Terminal Mode:

IC-705 → Internet → D-STAR

Falamos directamente no IC-705 e não existe RF no primeiro salto.

Em Access Point Mode:

outro rádio D-STAR → RF → IC-705 → Internet → D-STAR

Neste caso o 705 passa a funcionar como um pequeno ponto de acesso para outro transceptor. Existe uma frequência simplex entre os dois rádios e, naturalmente, aplicam-se todas as regras habituais relacionadas com uma emissão radioeléctrica.

O manual trata esta segunda operação imediatamente a seguir, nas págs. 15-17 a 15-21.

E afinal, para que serve isto se tenho um hotspot?

Um hotspot continua a ser uma solução extraordinariamente conveniente. Pode ficar ligado vinte e quatro horas por dia, consumir muito pouco, suportar vários modos digitais e libertar o IC-705 para aquilo que ele realmente é: um transceptor extremamente versátil.

Mas Terminal Mode resolve outro problema.

Se estou numa casa sem cobertura D-STAR, numa viagem, num hotel ou simplesmente quero experimentar um gateway sem montar mais equipamento, tenho o rádio, uma ligação Wi-Fi e tudo aquilo de que necessito para entrar na rede.

No caso particular do IC-705, um rádio concebido para ser transportável e que já inclui Wi-Fi, a função faz muito sentido. Levo o rádio, ligo-o à Internet e posso continuar a utilizar o D-STAR mesmo num lugar onde não exista um único repetidor da rede ao alcance da antena.

Se eu tivesse de configurar tudo novamente amanhã

A sequência que guardaria seria esta:

1. Ligar o IC-705 à Internet por Wi-Fi.

2. Confirmar o registo D-STAR do meu indicativo e do Terminal/AP Call Sign.

No meu caso:

MY: CT1EBQ

Terminal/AP: CT1EBQ H

3. Configurar o Internal Gateway:

MENU → SET → DV GW → Internal Gateway Settings

e verificar o servidor/gateway, Gateway Type = Global e, quando apropriado, UDP Hole Punch = ON.

4. Entrar em Terminal Mode:

MENU → DV GW → <<Terminal Mode>>

5. Escolher o tipo de chamada:

Gateway CQ — para outro repetidor;

Your Call Sign — para uma estação específica através de call sign routing;

ou, na experiência que fiz com o XLX:

Direct Input (RPT) → XLX267 Z

6. Carregar no PTT.

No meu caso, do outro lado da Internet apareceu imediatamente:

Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

E nesse momento soube que tudo estava a funcionar.

O que aprendi com o Terminal Mode

A dificuldade desta função não está verdadeiramente nos menus. Está na nossa cabeça.

Estamos habituados a pensar uma comunicação D-STAR como uma sequência inseparável:

frequência → repetidor → gateway → destino

O Terminal Mode obriga-nos a separar duas coisas:

como entro na rede

e

para onde quero que a chamada seja encaminhada.

Em Terminal Mode entramos na rede através da Internet. A partir daí continuamos a utilizar o routing D-STAR: Gateway CQ, call sign routing e os destinos suportados pelo gateway que escolhemos.

Quando se percebe esta distinção, aqueles campos FROMTORPT e os indicativos deixam de parecer uma herança estranha de uma comunicação RF que já não existe. Estamos simplesmente a construir o cabeçalho e o percurso de uma chamada D-STAR.

E talvez seja esta a parte do Terminal Mode de que mais gosto.

O IC-705 continua a ser um rádio. Continuamos a carregar no PTT e a falar para o seu microfone. Mas desta vez não há qualquer onda de 144 ou 430 MHz a sair da antena à procura de um repetidor próximo.

Uns instantes depois, a centenas ou milhares de quilómetros, um gateway D-STAR recebe o nosso indicativo e sabe para onde deve encaminhar aquela chamada.

É uma bela combinação entre rádio, redes IP e aquilo que o D-STAR foi pensado para fazer desde o princípio.


Referências no IC-705 Advanced Manual

Secção 15 — ABOUT THE DV GATEWAY FUNCTION

  • 15-2 — About the DV Gateway function: conceitos de Terminal Mode e Access Point Mode.
  • 15-3 — External Gateway Function e utilização de RS-MS3W/RS-MS3A.
  • 15-4 — Terminal/AP Call Sign e requisitos de registo.
  • 15-5 a 15-10 — configuração da rede.
  • 15-6 — UDP Hole Punch, porta UDP 40000 e respectivas limitações.
  • 15-11 e 15-12 — Internal Gateway Settings do IC-705.
  • 15-13 — configuração através de RS-MS3W.
  • 15-14 — configuração através de RS-MS3A.
  • 15-15 — activação do Terminal Mode e significado do ícone Internal Gateway.
  • 15-16 — operação em Terminal Mode: Gateway CQ e chamada individual por call sign routing.
  • 15-17 a 15-21 — Access Point Mode.
  • 15-22 a 15-27 — diagnóstico e resolução de problemas; especificamente Terminal Mode nas págs. 15-23 e 15-24.

O manual inglês actualizado pode ser obtido na página oficial de suporte da Icom procurando por IC-705 Advanced Manual. Prefiro indicar desta forma em vez de copiar imagens ou páginas do manual, cuja reprodução pública é limitada pelas condições de utilização da própria Icom.

73 de Ricardo Oitavén — CT1EBQ,
and Eyla IA

ICOM IC-705 — Terminal Mode, Access Point Mode e D-STAR através da Internet

O D-STAR nasceu para ser utilizado por rádio. Falamos para um repetidor em VHF ou UHF, esse repetidor entra na rede e, através dela, podemos chegar a outro repetidor, a um reflector ou directamente a outro radioamador. É provavelmente esta a imagem que quase todos temos quando começamos a utilizar D-STAR.

Mas há outra possibilidade menos conhecida e, no caso do IC-705, bastante interessante: entrar na rede D-STAR sem utilizar um repetidor local por RF.

É para isso que existem o Terminal Mode e o Access Point Mode.

À primeira vista parecem duas variantes da mesma função. Não são. No Terminal Mode o próprio IC-705 é a estação com que falamos; no Access Point Mode o IC-705 transforma-se numa porta de entrada RF para outro rádio D-STAR.

A diferença parece pequena quando dita assim, mas muda completamente a arquitectura da ligação.

Primeiro, o mínimo indispensável sobre D-STAR

Numa utilização tradicional de D-STAR, o percurso é aproximadamente este:

Rádio → RF → repetidor D-STAR → Internet → rede D-STAR → destino

O nosso rádio preocupa-se essencialmente com chegar ao repetidor. A partir daí é o gateway desse repetidor que encaminha a comunicação pela rede.

O destino pode ser outro repetidor, outro utilizador ou um reflector onde várias estações se encontram.

O que Terminal Mode e Access Point Mode fazem é permitir-nos substituir essa primeira parte do percurso.

Em vez de precisarmos de um repetidor D-STAR suficientemente próximo para receber o nosso sinal, podemos chegar à infraestrutura D-STAR através de uma ligação à Internet.

É especialmente interessante quando estamos num local sem cobertura D-STAR, em viagem, num hotel, numa segunda residência ou simplesmente quando queremos experimentar a rede sem depender de um repetidor local.

A própria Icom descreve estes dois modos precisamente desta forma: permitem fazer comunicações D-STAR pela Internet mesmo em locais onde não existe um repetidor D-STAR acessível por RF.

Terminal Mode: o IC-705 é o terminal

No Terminal Mode, falamos directamente para o IC-705.

Não há um segundo rádio e não existe uma transmissão RF entre nós e um repetidor D-STAR.

Podemos imaginar o percurso desta maneira:

IC-705 → Internet → gateway D-STAR → reflector/repetidor → destino

O microfone, altifalante, codec de voz D-STAR e interface de operação continuam a ser os do próprio IC-705. A diferença é que, em vez de o sinal DV sair pela antena em direcção a um repetidor, os dados entram na rede através da ligação Internet utilizada pelo sistema.

É quase como se tivéssemos deslocado virtualmente o nosso rádio até à entrada da rede D-STAR.

Continuamos a seleccionar destinos, repetidores ou reflectores e continuamos a fazer uma comunicação D-STAR normal do ponto de vista do operador, mas a primeira etapa deixou de ser uma ligação RF.

Esta distinção é importante: Terminal Mode não transforma o IC-705 num hotspot.

O IC-705 é, neste caso, o próprio terminal.

Access Point Mode: agora o IC-705 passa a ser a porta de entrada

No Access Point Mode, a situação muda.

Agora utilizamos outro rádio D-STAR para falar por RF com o IC-705. Este recebe essa comunicação e encaminha-a para a rede através da Internet.

O percurso passa a ser:

Rádio D-STAR → RF → IC-705 → Internet → rede D-STAR → destino

Aqui sim, o IC-705 desempenha uma função bastante semelhante àquilo que normalmente associamos a um hotspot.

Podemos, por exemplo, ter um portátil D-STAR connosco e deixar o IC-705 a funcionar como Access Point. O portátil comunica por RF numa frequência simplex com o 705 e este fornece-lhe acesso à rede D-STAR.

Na prática criámos um pequeno ponto de acesso D-STAR privado.

É fácil perceber a diferença olhando apenas para quem utilizamos para falar:

Terminal ModeAccess Point Mode
Rádio onde falamosIC-705Outro rádio D-STAR
Ligação RF localNãoSim
Papel do IC-705Terminal D-STARPonto de acesso
Segundo rádio necessárioNãoSim
Internet necessáriaSimSim

Então para que serve o Terminal Mode?

Imagine-se numa casa onde não chega qualquer repetidor D-STAR.

Temos Internet, temos o IC-705, mas nenhuma infraestrutura D-STAR alcançável por rádio.

Tradicionalmente precisaríamos de instalar um hotspot — um pequeno equipamento composto normalmente por um modem digital, algum tipo de computador ou controlador e uma ligação Internet.

Com o Terminal Mode, para determinadas utilizações, podemos dispensar esse elemento intermédio.

O IC-705 já contém a electrónica necessária para codificar e descodificar D-STAR e pode funcionar como terminal da própria rede.

Isto torna-se particularmente interessante num rádio como o IC-705, pensado desde a origem para utilização portátil. Podemos levá-lo para outra casa, para um hotel ou para um local temporário e continuar a aceder ao D-STAR mesmo que não haja qualquer repetidor da rede nas proximidades.

E para que serve então o Access Point Mode?

O Access Point Mode resolve um problema diferente.

Suponhamos que queremos andar pela casa com um pequeno portátil D-STAR.

O IC-705 pode ficar ligado à Internet e funcionar como ponto de entrada para esse portátil.

O percurso seria, por exemplo:

ID-52 → 430 MHz simplex → IC-705 → Internet → D-STAR

Nesse cenário já existe RF local, mas não estamos a utilizar um repetidor.

Criámos nós próprios o nosso pequeno acesso à rede.

É também por isso que devemos ter atenção às frequências utilizadas e às regras aplicáveis à emissão: no Access Point Mode existe efectivamente uma transmissão radioeléctrica entre dois equipamentos.

Terminal Mode, Access Point ou hotspot?

É provavelmente a pergunta mais interessante.

Se Terminal Mode e Access Point Mode permitem fazer isto, porque razão existem tantos hotspots D-STAR?

Porque as soluções não são exactamente equivalentes.

Um hotspot dedicado pode ficar permanentemente ligado, consumir pouca energia, suportar várias redes digitais e libertar o rádio principal para outras utilizações. Dependendo do equipamento, pode ainda oferecer DMR, YSF, P25, NXDN ou outras redes além de D-STAR.

O IC-705, pelo contrário, é um transceptor completo que ocasionalmente pode assumir estas funções.

Terminal Mode é especialmente elegante quando queremos utilizar o próprio 705.

Access Point Mode é interessante quando queremos transformar temporariamente o 705 no acesso de outro rádio.

Um hotspot continua provavelmente a ser a solução mais cómoda para uma estação permanentemente ligada 24 horas por dia.

Não há uma solução “melhor”. Há arquitecturas diferentes para necessidades diferentes.

Uma particularidade importante: a Internet não substitui o D-STAR

Pode parecer uma distinção filosófica, mas tecnicamente é importante.

Quando utilizamos Terminal Mode não estamos a fazer uma chamada de voz pela Internet como no WhatsApp, Zoom ou numa aplicação VoIP.

A comunicação continua a ser D-STAR.

O áudio continua a ser tratado segundo o sistema DV e entra na infraestrutura D-STAR. O que mudou foi apenas o meio utilizado para chegar ao gateway.

É precisamente isto que torna o conceito interessante: RF e Internet deixam de ser duas redes separadas e passam a ser dois caminhos possíveis para entrar no mesmo sistema.

Um teste real: IC-705 directamente no XLX267

Enquanto actualizava o meu reflector XLX267 surgiu uma oportunidade perfeita para experimentar esta arquitectura.

O XLX267 tinha sido recompilado para permitir todos os 26 módulos, de A a Z, e precisava de confirmar se um dos módulos mais altos estava efectivamente operacional.

Escolhi o módulo Z.

Em vez de procurar um repetidor ou configurar um hotspot, coloquei o IC-705 em Terminal Mode e liguei-me directamente ao:

XLX267 Z

No servidor apareceu imediatamente:

Presence from ... as CT1EBQ on terminal CT1EBQ H
Config request ... for XLX267 Z
Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

E no XML gerado pelo reflector:

<NODE>
    <Callsign>CT1EBQ  H</Callsign>
    <LinkedModule>Z</LinkedModule>
    <Protocol>Terminal/AP</Protocol>
</NODE>

Mais interessante ainda, depois de transmitir, o reflector registou também a estação:

<Callsign>CT1EBQ / 705</Callsign>

Era exactamente aquilo que queria observar.

Do lado do rádio estava simplesmente a utilizar o IC-705. Do lado do reflector, porém, era possível ver claramente que a ligação tinha chegado através do mecanismo Terminal/AP, directamente ao módulo Z.

E o Z apareceu imediatamente no dashboard do XLX267.

Há, contudo, uma pequena armadilha

Aqui começa uma segunda história.

Configurar o Terminal Mode no IC-705 não é tão intuitivo como a descrição anterior pode fazer parecer.

Advanced Manual explica o processo, mas existem alguns passos cuja formulação temos praticamente de interpretar à letra. Quando tentamos aplicar aquilo que intuitivamente pensamos que a Icom quis dizer, podemos acabar com uma configuração aparentemente correcta que simplesmente não estabelece a ligação como esperamos.

Foi precisamente isso que me levou a explorar com mais atenção a configuração.

E merece um artigo separado.

Nesse próximo texto quero fazer exactamente o contrário deste: em vez de explicar o que é Terminal Mode, vamos pegar no IC-705, abrir o Advanced Manual e configurar tudo, passo a passo, menu a menu, até vermos no servidor:

Opening stream on module Z...

Porque há coisas que se compreendem muito melhor depois de as vermos funcionar.

Então, afinal, qual escolher?

A regra mental que utilizo agora é extremamente simples:

Quero falar no próprio IC-705? → Terminal Mode.

Quero falar noutro rádio através do IC-705? → Access Point Mode.

Quero uma infraestrutura permanente e independente do meu rádio principal? → Hotspot dedicado.

Depois desta distinção, aquilo que inicialmente parece uma floresta de modos e opções fica bastante mais claro.

E talvez seja esta uma das características mais interessantes do D-STAR: podemos entrar na mesma rede por um repetidor a dezenas de quilómetros, por um pequeno hotspot em cima da secretária ou directamente através de um rádio como o IC-705 ligado à Internet.

Os caminhos são diferentes.

A rede, porém, continua a ser a mesma.

73,

Ricardo Oitavén — CT1EBQ

XLX267 — de um reflector D-STAR a um pequeno laboratório digital

O XLX267 nasceu como um reflector relativamente simples, com alguns módulos destinados a conversação internacional, regional e nacional e uma interligação a outros sistemas. Com o passar do tempo, porém, o D-STAR deixou de ser apenas uma rede de repetidores e reflectores. Hoje temos hotspots, Terminal Mode, Access Point Mode, interligações entre redes, gateways e cada vez mais possibilidades de experimentação.

Foi por isso que decidi actualizar o XLX267 e abrir todos os 26 módulos possíveis, de A a Z.

A alteração foi relativamente pequena no código do XLXD, mas muda bastante aquilo que podemos fazer com o reflector. O servidor passou a trabalhar com:

#define NB_OF_MODULES 26

Depois da recompilação e instalação do XLXD 2.5.3, fiz o teste mais simples e também o mais conclusivo: liguei o meu Icom IC-705 em Terminal Mode directamente ao XLX267, módulo Z.

O servidor respondeu:

Config request ... for XLX267 Z
Opening stream on module Z for client CT1EBQ H

e o próprio XML do reflector passou a mostrar:

<Callsign>CT1EBQ  H</Callsign>
<LinkedModule>Z</LinkedModule>
<Protocol>Terminal/AP</Protocol>

Ou seja: não era apenas uma alteração teórica na configuração. O módulo Z estava efectivamente operacional e a transportar tráfego D-STAR.

Mas para que queremos 26 módulos?

A resposta curta é: não queremos necessariamente usar os 26.

Criar vinte e seis salas vazias só porque estão disponíveis não teria grande interesse. A ideia é antes atribuir aos módulos uma lógica que torne o XLX267 fácil de compreender e, sobretudo, útil para experimentação.

A primeira proposta ficou assim:

$PageOptions['ModuleNames']['A'] = 'International';
$PageOptions['ModuleNames']['B'] = 'Regional';
$PageOptions['ModuleNames']['C'] = 'Portugal';
$PageOptions['ModuleNames']['D'] = 'Digital Lab';
$PageOptions['ModuleNames']['E'] = 'REF095C via XLX268';

$PageOptions['ModuleNames']['F'] = 'D-Star International';
$PageOptions['ModuleNames']['G'] = 'Gateways / Hotspots';
$PageOptions['ModuleNames']['H'] = 'Emergency';
$PageOptions['ModuleNames']['I'] = 'Digital / APRS';
$PageOptions['ModuleNames']['J'] = 'Nets';

$PageOptions['ModuleNames']['T'] = 'Terminal / AP';
$PageOptions['ModuleNames']['X'] = 'Experimental';
$PageOptions['ModuleNames']['Z'] = 'Test';

Os restantes ficam deliberadamente livres.

Não há vantagem em decidir hoje o que fazer com K, L, M ou Y. Se surgir uma necessidade interessante amanhã, haverá espaço para ela.

Alguns módulos com personalidade própria

Há quatro que me parecem particularmente interessantes.

D — Digital Lab

Um espaço para experiências com D-STAR, hotspots, gateways, bridges e novos equipamentos sem perturbar os módulos destinados a conversação normal.

T — Terminal / AP

Este nasceu quase naturalmente das experiências que tenho feito com os rádios Icom.

O Terminal Mode permite que equipamentos como o IC-705 ou outros Icom compatíveis comuniquem com a rede D-STAR através da Internet sem ser necessário chegar por RF a um repetidor. O Access Point Mode permite ainda utilizar o rádio como ponto de acesso para outro equipamento D-STAR.

Ter um módulo explicitamente dedicado a este tipo de experiências pareceu-me bastante lógico.

X — Experimental

O verdadeiro laboratório.

Interligações temporárias, testes de protocolos, gateways, software novo ou qualquer experiência que ainda não saibamos muito bem onde encaixar.

Z — Test

Uma espécie de carga fictícia virtual.

Queremos verificar se um hotspot está correctamente configurado? Se o Terminal Mode chega ao reflector? Se um gateway consegue estabelecer ligação?

Liga-se ao Z e experimenta-se.

Curiosamente, foi também o primeiro módulo novo que utilizei depois da alteração para A–Z.

Os módulos que já existiam

Algumas funções anteriores permanecem.

O módulo A continua vocacionado para contactos internacionais, B para utilização regional e C para Portugal.

O módulo E mantém uma interligação com o XLX268, através da qual existe acesso ao REF095C.

Uma das vantagens da arquitectura XLX é precisamente esta possibilidade de fazer de determinado módulo uma porta para outro reflector ou rede sem transformar todo o sistema numa única sala gigantesca.

E o dashboard?

Outra curiosidade surgiu durante a alteração.

O dashboard não tem uma lista fixa A–Z. Ele pergunta ao reflector quais os módulos onde existem nós ligados:

$Modules = $Reflector->GetModules();

Por isso um módulo vazio nem sequer aparece necessariamente na página.

Quando liguei o IC-705 ao módulo Z, o dashboard passou imediatamente a mostrar Z.

É uma solução simples e elegante: os módulos existem no reflector, mas a interface só mostra aquilo que nesse momento está a ser utilizado.

Uma pequena infraestrutura para experimentar

É talvez esta a parte que mais me interessa no projecto.

Não pretendo transformar o XLX267 num enorme reflector mundial cheio de utilizadores. Existem outros muito maiores para isso.

Interessa-me mais que seja um pequeno espaço técnico onde possamos experimentar.

D-STAR por RF.

D-STAR por Internet.

Terminal Mode.

Access Point Mode.

Hotspots.

Gateways.

Interlinks.

E aquilo que ainda aparecer nos próximos anos.

Tal como acontece tantas vezes no radioamadorismo, o interesse não está apenas em conseguir estabelecer a comunicação.

Está também em perceber como ela funciona.

O XLX267 está disponível em:

http://xlx.ct1ebq.com

73,

Ricardo Oitavén — CT1EBQ

CT1EBQ World Watch HF — 100 frequências de onda curta para uma crise internacional

A Internet caiu. As redes móveis estão congestionadas, alguns serviços deixaram de responder e a informação que continua a circular chega-nos repetida pelas mesmas fontes.

Não é necessário imaginar o fim do mundo.

Pode tratar-se de uma guerra, um golpe de Estado, uma grande catástrofe natural, um ataque informático, uma falha prolongada de energia ou, simplesmente, de um país onde o acesso à informação foi condicionado.

Ainda temos um rádio de onda curta.

Que frequências gostaríamos de ter programadas?

Foi esta pergunta que deu origem à CT1EBQ World Watch HF: uma lista de memórias preparada para acompanhar acontecimentos internacionais através das emissões dos próprios países e das diferentes organizações que procuram fazer-se ouvir.

Não é uma lista da verdade.

É uma lista de vozes.

Da EiBi para o rádio

Em 2023 publiquei neste blog o artigo A lista mais completa de estações de onda-curta, apresentando a base de dados EiBi.

A EiBi continua a ser uma das melhores fontes para consultar frequências, horários, idiomas, estações e zonas de destino. A actual grelha A26 é válida entre 29 de Março e 25 de Outubro de 2026. A HFCC publica igualmente os horários operacionais coordenados pelos seus membros; a versão A26 disponível à data deste artigo foi actualizada em 30 de Julho de 2026.

Há, no entanto, um pequeno senão.

Estas bases de dados contêm milhares de emissões. São excelentes para pesquisa, identificação e trabalho de DX, mas pouco práticas quando pretendemos seleccionar uma centena de memórias para um receptor.

Quando tenho o rádio à minha frente, não quero percorrer três mil linhas para descobrir onde está a BBC, a China Radio International ou a Radio Romania International.

Quero escolher uma estação e experimentar as suas frequências até encontrar a que está a chegar melhor naquele momento.

Por esse motivo, o ficheiro está organizado por estação emissora, e não por frequência.

Quem preferir outra organização pode abrir o CSV numa folha de cálculo e ordená-lo por frequência, idioma, país, destino, prioridade ou qualidade estimada de recepção em Portugal.

Cada linha é autónoma e conserva toda a informação necessária.

Ouvir todas as partes

O objectivo desta lista não é determinar antecipadamente quais as estações credíveis e quais as que difundem propaganda.

Todas as emissoras internacionais representam, de uma forma ou de outra, uma perspectiva editorial, institucional, cultural ou política.

A BBC World Service permite-nos acompanhar a perspectiva britânica e uma ampla rede internacional de correspondentes. A Voice of America representa uma importante voz norte-americana. A China Radio International transmite a posição de Pequim. A Radio Russia permite acompanhar a narrativa russa. A IRIB apresenta a perspectiva oficial iraniana e a Voice of Türkiye a posição de Ancara.

Juntam-se a estas a NHK World Radio Japan, KBS World Radio, All India Radio, Radio France Internationale, Radio Exterior de España, Radio Romania International, RNZ Pacific, Vatican Radio, Radio Kuwait, Saudi Radio, Radio Algérienne Internationale, Radio Habana Cuba e outras vozes regionais.

Algumas eram também desconhecidas para mim.

Radio Farda é um serviço em língua persa dirigido ao Irão, associado à Radio Free Europe/Radio Liberty e financiado através da estrutura norte-americana USAGM. A Radio Martí é dirigida a Cuba e administrada pelo Office of Cuba Broadcasting. A Radio Free Asia transmite informação destinada a audiências asiáticas com acesso condicionado a meios de comunicação independentes.

Estas estações não foram incluídas para que aceitemos a sua versão dos acontecimentos.

Foram incluídas precisamente para que possamos compará-la com as versões difundidas pelos países a que se dirigem.

Por vezes, aquilo que uma estação omite é tão importante como aquilo que transmite.

Também interessa observar:

  • quem noticia primeiro determinado acontecimento;
  • que palavras utiliza para o descrever;
  • quando altera subitamente o tom;
  • quais os assuntos repetidos insistentemente;
  • e quais os acontecimentos que desaparecem por completo de uma emissão.

Uma lista única para todo o ano

As emissões internacionais de HF estão organizadas em duas épocas.

A época A decorre, de forma geral, desde o último domingo de Março até ao último domingo de Outubro. A época B cobre o período restante, correspondente ao inverno no hemisfério Norte. As frequências, horários, locais de transmissão e azimutes podem mudar entre as duas grelhas.

A primeira ideia foi publicar dois ficheiros: A26 e B26.

Na prática, isso obrigaria a substituir as memórias do rádio duas vezes por ano, podendo ainda apagar alterações pessoais feitas pelo utilizador.

Optei por outro caminho.

A edição CT1EBQ World Watch HF 2026.1 reúne frequências da época A26 e frequências recorrentes da anterior época B25. As estações mais importantes aparecem em várias bandas, permitindo acompanhar as mudanças de propagação ao longo do dia e das estações do ano.

Não se procura uma única frequência perfeita para cada rádio.

Procura-se redundância.

Quando uma emissão deixa de chegar nos 49 metros, pode estar disponível nos 31, 25, 19 ou 16 metros.

A grelha B26 ainda estava em fase de preparação quando esta edição foi criada. A HFCC abriu o envio de dados B26 em Junho de 2026, mas uma futura edição poderá incorporar a grelha operacional definitiva quando esta estiver disponível.

Cem memórias, cem frequências diferentes

A edição compacta foi preparada para um banco com um limite exacto de 100 memórias.

Inicialmente, algumas frequências apareciam mais de uma vez porque podiam transportar diferentes idiomas ou até diferentes estações em horários distintos.

Por exemplo, a Vatican Radio utiliza 7.305 MHz para emissões em português e espanhol. Não faria sentido ocupar duas memórias do rádio com a mesma frequência.

A lista foi por isso consolidada.

Cada frequência aparece apenas uma vez.

Quando uma frequência é utilizada por mais de uma estação ou em vários idiomas, essa informação fica reunida nos campos NameCommentStationLanguage e UTC.

A edição alargada passou igualmente pelo mesmo processo e contém 194 frequências únicas, em vez das 246 linhas de emissão que lhe deram origem.

Como interpretar o nome da memória

O campo Name foi limitado a 16 caracteres, para ser compatível com o espaço disponível nas memórias de diversos rádios.

A estrutura utilizada é:

ESTAÇÃO DESTINO IDIOMA PRIORIDADE

Por exemplo:

BBC AF EN 5*
REE SA ES 5*
CRI EU PT 5*
IRIB ME AR 4*
RNZ OC EN 5*

Em BBC AF EN 5*:

  • BBC identifica a estação;
  • AF indica que a emissão se destina a África;
  • EN identifica o idioma inglês;
  • 5* indica a prioridade atribuída à escuta.

Quando uma frequência é partilhada, podem aparecer nomes como:

VOA/FARDA XX 5*
TRT/KBS EU EN 4*
CRI/RUS XX XX 5*

O código XX indica que existe mais do que um destino, idioma ou serviço associado à memória. A informação completa permanece nas restantes colunas.

Destinos

CódigoRegião
EUEuropa
AFÁfrica
ASÁsia
MEMédio Oriente
NAAmérica do Norte
SAAmérica do Sul
OCOceânia e Pacífico
GLCobertura global
XXMais do que um destino

Idiomas mais utilizados

CódigoIdioma
PTPortuguês
ESEspanhol
ENInglês
FRFrancês
DEAlemão
ITItaliano
RURusso
ARÁrabe
FAPersa ou Dari
ZHMandarim
JAJaponês
KOCoreano
XXMais do que um idioma

O significado das estrelas

A classificação não avalia a veracidade ou a independência editorial da estação.

Representa a sua prioridade de escuta nesta lista.

ClassificaçãoSignificado
5*Fonte essencial ou actor geopolítico de primeira importância
4*Fonte internacional ou regional muito relevante
3*Fonte complementar, regional ou de recepção mais difícil

Uma estação oficial chinesa, russa, iraniana ou norte-americana pode ter 5 estrelas sem que isso constitua um selo de credibilidade.

Significa apenas que a sua narrativa é importante para compreender determinado acontecimento.

Informação contida no CSV

O ficheiro não contém apenas os quatro campos importados pelo software de programação.

Inclui também informação para consulta, impressão ou reorganização:

  • identificador numérico;
  • frequência em MHz e kHz;
  • nome abreviado para a memória;
  • modo de recepção;
  • comentário limitado a 80 caracteres;
  • nome completo da estação;
  • país;
  • continente ou região de destino;
  • idioma;
  • tipo de serviço;
  • prioridade;
  • recepção estimada em Portugal;
  • época;
  • horário UTC;
  • banda;
  • fonte utilizada;
  • racional para a inclusão da memória.

No RT Systems serão importados apenas os campos reconhecidos pelo programa. As restantes colunas permanecem no CSV e podem ser utilizadas numa folha de cálculo ou impressas para acompanhar o rádio.

A estimativa RX PT é apenas uma indicação. A recepção efectiva depende da localização, antena, ruído local, hora, época do ano, actividade solar e condições da ionosfera.

AM, para poder ser ouvida por todos

Esta primeira edição privilegia emissões em AM.

O objectivo é que a lista possa ser utilizada num Tecsun PL-990X, num receptor portátil simples, num SDR ou em transceptores como o IC-705 e o IC-7300.

Existem emissões em DRM — Digital Radio Mondiale — com melhor qualidade de áudio e possibilidade de transmitir dados. No entanto, exigem um receptor ou software capaz de descodificar o sinal.

Numa lista destinada a uma situação anormal, a compatibilidade pareceu-me mais importante do que a qualidade digital.

Ficheiros para download

CT1EBQ World Watch HF 2026.1 — Compact 100 Unique

100 memórias e 100 frequências únicas, preparadas para um banco limitado a 100 posições.

Ficheiro: CT1EBQ_World_Watch_HF_2026_1_Compact_100_Unique.csv

CT1EBQ World Watch HF 2026.1 — Unique 194

Edição alargada com 194 frequências únicas, mantendo maior redundância de bandas, idiomas e zonas de destino.

Ficheiro: CT1EBQ_World_Watch_HF_2026_1_Unique_194.csv

Como utilizar

Antes de importar, sugiro que abra o CSV numa folha de cálculo.

Pode:

  • eliminar idiomas que não compreenda;
  • favorecer português, espanhol ou inglês;
  • retirar estações com baixa probabilidade de recepção no seu QTH;
  • ordenar por frequência;
  • reorganizar por país ou região;
  • adaptar os nomes ao limite do seu receptor;
  • ou criar o seu próprio banco a partir desta selecção.

Os horários e idiomas devem ser confirmados na EiBi, HFCC ou noutra base actualizada, sobretudo quando não se ouve a estação esperada.

Uma frequência internacional pode ser utilizada por serviços diferentes ao longo do dia, sofrer interferência intencional, mudar temporariamente de transmissor ou deixar de estar activa sem aviso.

Esta lista não substitui as bases de dados de broadcasting.

Torna-as utilizáveis no rádio.

Uma lista para ouvir antes de formar opinião

A onda curta não nos garante acesso à verdade.

Dá-nos, contudo, acesso directo a versões dos acontecimentos que muitas vezes não chegam pelos canais que consultamos habitualmente.

Num conflito internacional, ouvir apenas uma das partes é confortável.

Ouvir várias exige mais atenção, algum espírito crítico e a disponibilidade para aceitar que a realidade pode não caber inteiramente em nenhuma das narrativas.

Esta lista nasceu com esse objectivo:

Ter no rádio um conjunto de vozes suficientemente diverso para escutar o mundo antes de formar opinião.

A selecção, critérios e estrutura foram desenvolvidos por Ricardo Oitavén, CT1EBQ, em colaboração com a Eyla, a partir das bases de dados e fontes indicadas em cada linha do ficheiro.

Referências

Modos digitais com Kenwood, Quansheng ou Baofeng

Os rádio Quansheng UV-K5(8), com baixo custo de aquisição, a adopção da mesma ficha Mic/Speaker e pinout que os reconhecidos portáteis da Kenwood, ou do USB-C para carregamento da bateria, e pela liberização do código do firmware fez destes rádios um sucesso comercial!

Fala-se deles por todo o mundo, as encomendas são aos milhares e esgotam rapidamente. Vêm da China e chegam ao cliente numa semana.

Mas sem dúvida que o grande entusiasmo se deve à possibilidade de cada um poder fazer alterações ao firmware e existir uma grande comunidade global a desenvolver novas e novas funcionalidades…
A competição é tanta que são lançados novos firmwares quase todos os dias!

Este sucesso é tal que deveria levar as grandes marcas Icom, Yaesu e Kenwood a liberarem o seu firmware! Já imaginaram o vosso rádio, qualquer que seja, com algumas destas funcionalidades? Se nos disponibilizam os esquemas e manuais de serviço por que não nos disponibilizam também o firmware documentado?

Alguns destes firmwares possibilitam funcionalidades como escutar e transmitir em AM, SSB (DSB - dual side band), CW e o original FM. Outros apresentam uma pequena waterfall, fazem recepção e transmissão dos 28MHz até 1,3GHz, enviam SSTV e APRS, entre muitas outras funções…

Os mais conhecidos são o egzumer um dos melhores e documentados com a possibilidade de carregar o firmware através de um simples browser, o IJV, o amnemonic, o Matoz, o Tunas1337, ou seleccionar uma série de funcionalidades para download e fazer imediatamente o flash destas opções através do browser... lista esta que será rapidamente desactualizada no tempo!

Estes rádios têm um modulador interno que permite ainda o envio de muitos modos digitais, a serem desenvolvidos enquanto escrevo mas, para aqueles que querem tirar todo o potencial destes modos e ligar um fldigi ou outro software, que utilize o GPIO3 do chip CM108 para fazer PTT, este artigo é para eles…

Para este projecto precisa, para além da placa de som USB com chip CM108, de um cabo Kenwood, uma resistência de 4,7k a 10k ohm, e um transistor NPN em TO92, caixa plástica.

Remova cuidadosamente as fichas de cor verde e rosa e a resistência de bias SMD R6, responsável por alimentar o microfone de condensador. Solde com um ferro de ponta fina ~1mm a resistência ao pino 13, porta GPIO3, do chip CM108 e a outra extremidade da resistência à base do transístor, o emissor deste transístor ao GND (negativo, massa) e o coletor será a saída de PTT para o rádio...

Em imagens,

Outras referências aqui, à CM108

Como ligar o IC-7300 a Amplificadores Lineares não Icom

De modo a proteger o transceptor IC-7300, quando queremos usar Amplificadores Lineares não Icom esta sugere, no capítulo 2-5 do manual básico, utilizar-se um relé directamente na ficha SEND. Ou com um cabo único ligado à ficha de ACC que pode levar também a informação de ALC (verifique as especificações, de 0 a -4V)

O circuito que aqui partilho permite substituir o relé por semi-conductores evitando o ruído audível de comutação do relé, que poderá incomodar sobre tudo quando estamos em CW.

Utilizo aqui a ficha ACC, descrita no capítulo 12-1, por ter incluída a alimentação de 13,8V a 1A para o circuito. Este circuito consome poucos miliamperes e a carga do relé do Amplificador Linear depende da alimentação do próprio amplificador, já que o PTT é feito à massa (negativo) através do MOSFET IRF830.

O divisor de tensão com as resistências 3,3k e 1k permite manter uma tensão de threshold de cerca de 4V na gate do IRF830, indicada pelo fabricante.

Quando o sinal de entrada em SEND vai a zero, o Led acende e o IRF830 leva a sinal de PTT ao nível de ground.

Se quiser simular o esquema pode descarregar o iCircuit e testar este projecto.