
No artigo anterior procurei explicar o conceito de Terminal Mode e de Access Point Mode no IC-705. Em ambos os casos há algo que, à primeira vista, parece quase estranho num rádio: podemos entrar na rede D-STAR através da Internet, mesmo que não exista qualquer repetidor D-STAR ao nosso alcance por RF. A diferença fundamental é que, em Terminal Mode, é o próprio IC-705 que utilizamos para falar; em Access Point Mode, o 705 funciona como ponto de acesso RF para um segundo rádio D-STAR.
Faltava a parte mais interessante: como se faz isto realmente? Foi precisamente aqui que comecei por complicar uma coisa que, depois de compreendida, é bastante lógica. O Advanced Manual da Icom explica o procedimento, mas algumas frases têm mesmo de ser interpretadas quase à letra. E desta vez tive uma vantagem extraordinária: como administro o XLX267, pude olhar para os logs do servidor e observar exactamente aquilo que o IC-705 estava a fazer do outro lado da Internet.
Antes de começar: o que faz realmente o Terminal Mode?
Numa utilização convencional do D-STAR, o primeiro salto é por rádio. O meu IC-705 transmite em DV para um repetidor próximo; esse repetidor possui um gateway ligado à Internet e é a partir daí que a chamada pode seguir para outro repetidor ou para outro utilizador da rede.
Simplificando:
IC-705 → RF → repetidor D-STAR → gateway → Internet → destino
No Terminal Mode retiramos precisamente esse primeiro salto por RF:
IC-705 → Internet → gateway D-STAR → destino
O rádio continua a tratar o áudio, a codificação DV, o nosso indicativo e o routing D-STAR. O que desaparece é a necessidade de transmitir pela antena para chegar a um repetidor local. O próprio manual é muito claro neste ponto: em Terminal Mode o transceptor não transmite nem recebe sinais RF através da antena.
Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-2 — “About the DV Gateway function”.
E aqui está uma surpresa importante: Terminal Mode não é “modo reflector”
Esta distinção merece ser feita logo no início porque eu próprio comecei por associar naturalmente Terminal Mode a “ligar o rádio pela Internet a um reflector”. O manual diz algo bastante diferente e muito mais interessante.
Na pág. 15-16, a Icom especifica que em Terminal Mode podemos fazer uma Gateway CQ Call ou uma chamada para uma estação específica através de call sign routing. E acrescenta explicitamente que não podemos efectuar a chamada seleccionando Local CQ ou Reflector.
Isto significa que o Terminal Mode preserva uma das características que considero mais elegantes do D-STAR: não precisamos necessariamente de saber onde está a estação que queremos chamar. Podemos seleccionar o indicativo dessa estação e o sistema de routing D-STAR procura encaminhar a chamada para onde esse indicativo foi registado/ouvido na rede.
Podemos igualmente escolher um repetidor remoto através de Gateway CQ. Portanto, conceptualmente, Terminal Mode não significa “Internet → reflector”; significa antes “Internet → gateway D-STAR”, e a partir daí utilizamos o routing que esse gateway disponibiliza.
Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-16 — “Operating in the Terminal mode”.
Então, e o XLX267?
Aqui começa precisamente a parte interessante da experiência.
No meu caso estou a utilizar o XLX267 como destino/gateway, e foi através dele que consegui chegar aos seus módulos. Isto não é o mesmo que seleccionar no menu DR a função normal Reflector, que o manual diz não estar disponível em Terminal Mode.
A solução apareceu quando segui literalmente a lógica do manual e utilizei:
TO → Direct Input (RPT)
Introduzindo, por exemplo:
XLX267 E
O “RPT” de Direct Input (RPT) pode induzir-nos a pensar exclusivamente num repetidor físico situado algures, a transmitir numa frequência VHF ou UHF. Mas aqui estamos a construir o routing D-STAR; não estamos a escolher a frequência do primeiro salto RF, porque esse primeiro salto simplesmente não existe.
Foi esta mudança de perspectiva que me fez finalmente compreender a operação.
O IC-705 possui Internal Gateway
Outra característica importante do 705 é que não precisamos obrigatoriamente de colocar um PC ou um telefone Android entre o rádio e a Internet. O IC-705 possui aquilo a que a Icom chama Internal Gateway Function.
Com o rádio ligado à Internet através da sua interface de rede, podemos utilizar directamente Terminal Mode e Access Point Mode. As aplicações RS-MS3W, para Windows, e RS-MS3A, para Android, continuam a ser possíveis através da função External Gateway, sobretudo quando o rádio não pode estabelecer directamente a ligação à Internet, mas não são necessárias na configuração que estou a utilizar.
No meu caso, portanto, o percurso é simplesmente:
IC-705 → Wi-Fi → Internet → gateway D-STAR
Sem computador, sem Raspberry Pi, sem hotspot MMDVM e sem qualquer outro equipamento intermédio.
Referências: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-3 — “When using the External Gateway function”; págs. 15-11 e 15-12 — “When using the Internal Gateway function”.
O que precisamos de preparar
Primeiro, naturalmente, o IC-705 tem de conseguir chegar à Internet. No meu caso utilizo a ligação Wi-Fi do próprio rádio através da rede local.
Depois precisamos de ter o nosso indicativo D-STAR devidamente registado e, além dele, um Terminal/AP Call Sign. O manual chama especial atenção para isto: não basta que o nosso MY Call Sign esteja correcto; o indicativo Terminal/AP também tem de estar registado no gateway.
No meu caso:
MY Call Sign: CT1EBQ
Terminal/AP Call Sign: CT1EBQ H
O H não é uma letra que outro radioamador deva simplesmente copiar. É o sufixo que tenho registado para este acesso. A Icom especifica que o Terminal/AP Call Sign tem oito caracteres e que o último é um identificador entre A e Z, com algumas letras reservadas que não devem ser usadas.
Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-4 — “About the Terminal and Access Point (AP) Call sign”.
Configurar o Internal Gateway
No IC-705 entramos em:
MENU → SET → DV GW → Internal Gateway Settings
É aqui que configuramos os parâmetros necessários ao gateway interno. Entre eles encontramos o endereço do Gateway Repeater (Server IP/Domain), o nosso Terminal/AP Call Sign, o tipo de gateway e a opção UDP Hole Punch.
No Terminal/AP Call Sign coloquei, naturalmente:
CT1EBQ H
O Gateway Type, fora do Japão, deve ficar em:
Global
E depois temos o UDP Hole Punch, que merece alguma atenção própria.
Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-11 — “Setting the Internal Gateway Settings”.
UDP Hole Punch: o que é e porque pode ser necessário
A maioria das nossas redes domésticas está atrás de NAT. O computador, rádio ou telefone possui um endereço IP privado e é o router que mantém a ligação com a Internet. Isto cria uma dificuldade óbvia quando alguém no exterior pretende iniciar tráfego UDP directamente para um equipamento que está dentro da nossa rede.
O mecanismo UDP Hole Punch procura contornar precisamente esta situação. Ao iniciarmos comunicação para o exterior é criada uma associação no NAT do router que permite que a resposta percorra o caminho inverso, sem termos necessariamente de encaminhar manualmente a porta UDP 40000.
No meu IC-705 utilizo:
UDP Hole Punch: ON
Mas esta solução tem uma limitação importante, e o manual explica-a muito bem: o “buraco” criado pelo NAT não permanece aberto indefinidamente. Passados alguns minutos — a Icom indica menos de três minutos, dependendo do router — podemos deixar de conseguir receber uma chamada de retorno até transmitirmos novamente para aquela estação.
Também não devemos entender UDP Hole Punch como substituto universal de um endereço IPv4 público ou de port forwarding. É sobretudo uma forma muito prática de permitir determinadas comunicações Terminal/AP em redes onde não controlamos toda a infraestrutura.
Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-6 — “About the UDP Hole Punch function”.
Finalmente: colocar o IC-705 em Terminal Mode
Depois de termos a ligação de rede e o Internal Gateway configurados, a entrada em Terminal Mode é extremamente simples:
MENU → DV GW → <<Terminal Mode>>
O rádio muda automaticamente alguns parâmetros: passa para DV, activa a função DR e coloca o nosso próprio indicativo em FROM. A Icom chama ainda a atenção para um detalhe curioso: Terminal Mode não é automaticamente cancelado quando desligamos e voltamos a ligar o transceptor.
No ecrã aparece também o ícone do Internal Gateway, que nos permite perceber se está em standby, a transmitir, a receber ou se existe algum erro de rede ou comunicação.
Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-15 — “Setting the Terminal mode”.
E agora, para onde queremos falar?
É aqui que o manual esclarece de forma muito interessante aquilo que podemos fazer em Terminal Mode.
Para fazer uma chamada geral através de outro repetidor escolhemos:
TO → Gateway CQ
e depois seleccionamos o grupo e o repetidor de destino.
Para chamar directamente outro radioamador escolhemos:
TO → Your Call Sign
e seleccionamos o indicativo da estação. O routing D-STAR trata depois de procurar o caminho para ela.
Isto é uma diferença conceptual enorme em relação a sistemas onde temos primeiro de descobrir o talkgroup, reflector ou repetidor em que a outra pessoa se encontra. No D-STAR, o indicativo pode ser o próprio endereço da chamada.
Referência: IC-705 Advanced Manual, pág. 15-16 — “Operating in the Terminal mode”.
O caso especial que experimentei: Direct Input (RPT) e o XLX267
Foi contudo outra possibilidade que me interessou nesta experiência: introduzir directamente o XLX267 como destino.
Em:
TO → Direct Input (RPT)
introduzi inicialmente:
XLX267 E
O módulo E do XLX267 encontra-se interligado ao XLX268, e essa ligação dá-me acesso ao REF095C. Assim, do ponto de vista da experiência, o percurso tornou-se aproximadamente:
IC-705 → Internet → XLX267 E → XLX268 E → REF095C
Há aqui uma distinção importante: no IC-705 eu não seleccionei Reflector → REF095C. Isso seria precisamente a operação que o manual diz não estar disponível em Terminal Mode.
Introduzi um destino através do routing de repetidor/gateway:
XLX267 E
e foi a configuração existente no XLX que tratou posteriormente da interligação.
Esta nuance explica grande parte da confusão inicial.
Uma experiência ainda melhor: XLX267 Z
Entretanto surgiu uma oportunidade perfeita para comprovar tudo isto.
Actualizei o servidor do XLX267 para passar dos dez módulos que tinha disponíveis para os 26 módulos possíveis, de A a Z. Depois de recompilar e instalar o XLXD 2.5.3 precisava de responder a uma pergunta muito simples: será que o módulo Z funciona realmente?
Em vez de montar um hotspot ou procurar um repetidor D-STAR, usei precisamente o Terminal Mode do IC-705.
No rádio:
TO → Direct Input (RPT) → XLX267 Z
Poucos segundos depois apareceu no servidor:
Presence from ... as CT1EBQ on terminal CT1EBQ H
e logo a seguir:
Config request ... for XLX267 Z (repeater)
Carreguei no PTT e o XLXD respondeu:
Opening stream on module Z for client CT1EBQ H
Quando larguei o PTT:
Closing stream of module Z
Repeti a transmissão várias vezes e o resultado foi sempre o mesmo.
Não havia qualquer dúvida: o IC-705 estava a chegar pela Internet ao XLX267, o reflector reconhecia a ligação como Terminal/AP e abria efectivamente o stream no novo módulo Z.
O que o servidor vê do outro lado
Esta é uma das vantagens de termos acesso ao servidor: podemos ver aquilo que normalmente fica escondido atrás da interface do rádio.
No XML do XLX267 surgiu:
CT1EBQ H
LinkedModule: Z
Protocol: Terminal/AP
E, depois da transmissão, apareceu ainda:
CT1EBQ / 705
Há portanto duas informações diferentes. CT1EBQ H identifica a sessão Terminal/AP através da qual estou ligado ao gateway; CT1EBQ /705 identifica a estação que acabou de transmitir.
Foi também uma bela forma de confirmar que o novo módulo Z do reflector estava verdadeiramente operacional, e não apenas definido no código.
Uma coisa que o manual diz e que vale a pena decorar
Depois desta experiência voltei à pág. 15-16 do Advanced Manual e percebi que esta talvez seja a parte mais importante de toda a secção.
Em Terminal Mode podemos fazer:
Gateway CQ
ou
uma chamada para uma estação específica por call sign routing.
Mas não podemos efectuar a chamada seleccionando:
Local CQ
ou
Reflector
Isto acaba por ser perfeitamente lógico. Local CQ pressupõe uma área RF local e nós não estamos ligados por RF a um repetidor. E a operação normal Reflector do menu DR não é o mecanismo utilizado pelo DV Gateway em Terminal Mode.
O nosso teste com o XLX267 não contradiz esta regra: estamos a apresentar o XLX como um destino de gateway/repeater através de Direct Input (RPT), e é depois o próprio XLX que encaminha o tráfego para o respectivo módulo ou interlink.
Para mim, foi esta peça que finalmente arrumou todo o puzzle.
Terminal Mode e Access Point Mode são muito diferentes
Apesar de aparecerem lado a lado nos menus do IC-705, convém manter a distinção muito clara.
Em Terminal Mode:
IC-705 → Internet → D-STAR
Falamos directamente no IC-705 e não existe RF no primeiro salto.
Em Access Point Mode:
outro rádio D-STAR → RF → IC-705 → Internet → D-STAR
Neste caso o 705 passa a funcionar como um pequeno ponto de acesso para outro transceptor. Existe uma frequência simplex entre os dois rádios e, naturalmente, aplicam-se todas as regras habituais relacionadas com uma emissão radioeléctrica.
O manual trata esta segunda operação imediatamente a seguir, nas págs. 15-17 a 15-21.
E afinal, para que serve isto se tenho um hotspot?
Um hotspot continua a ser uma solução extraordinariamente conveniente. Pode ficar ligado vinte e quatro horas por dia, consumir muito pouco, suportar vários modos digitais e libertar o IC-705 para aquilo que ele realmente é: um transceptor extremamente versátil.
Mas Terminal Mode resolve outro problema.
Se estou numa casa sem cobertura D-STAR, numa viagem, num hotel ou simplesmente quero experimentar um gateway sem montar mais equipamento, tenho o rádio, uma ligação Wi-Fi e tudo aquilo de que necessito para entrar na rede.
No caso particular do IC-705, um rádio concebido para ser transportável e que já inclui Wi-Fi, a função faz muito sentido. Levo o rádio, ligo-o à Internet e posso continuar a utilizar o D-STAR mesmo num lugar onde não exista um único repetidor da rede ao alcance da antena.
Se eu tivesse de configurar tudo novamente amanhã
A sequência que guardaria seria esta:
1. Ligar o IC-705 à Internet por Wi-Fi.
2. Confirmar o registo D-STAR do meu indicativo e do Terminal/AP Call Sign.
No meu caso:
MY: CT1EBQ
Terminal/AP: CT1EBQ H
3. Configurar o Internal Gateway:
MENU → SET → DV GW → Internal Gateway Settings
e verificar o servidor/gateway, Gateway Type = Global e, quando apropriado, UDP Hole Punch = ON.
4. Entrar em Terminal Mode:
MENU → DV GW → <<Terminal Mode>>
5. Escolher o tipo de chamada:
Gateway CQ — para outro repetidor;
Your Call Sign — para uma estação específica através de call sign routing;
ou, na experiência que fiz com o XLX:
Direct Input (RPT) → XLX267 Z
6. Carregar no PTT.
No meu caso, do outro lado da Internet apareceu imediatamente:
Opening stream on module Z for client CT1EBQ H
E nesse momento soube que tudo estava a funcionar.
O que aprendi com o Terminal Mode
A dificuldade desta função não está verdadeiramente nos menus. Está na nossa cabeça.
Estamos habituados a pensar uma comunicação D-STAR como uma sequência inseparável:
frequência → repetidor → gateway → destino
O Terminal Mode obriga-nos a separar duas coisas:
como entro na rede
e
para onde quero que a chamada seja encaminhada.
Em Terminal Mode entramos na rede através da Internet. A partir daí continuamos a utilizar o routing D-STAR: Gateway CQ, call sign routing e os destinos suportados pelo gateway que escolhemos.
Quando se percebe esta distinção, aqueles campos FROM, TO, RPT e os indicativos deixam de parecer uma herança estranha de uma comunicação RF que já não existe. Estamos simplesmente a construir o cabeçalho e o percurso de uma chamada D-STAR.
E talvez seja esta a parte do Terminal Mode de que mais gosto.
O IC-705 continua a ser um rádio. Continuamos a carregar no PTT e a falar para o seu microfone. Mas desta vez não há qualquer onda de 144 ou 430 MHz a sair da antena à procura de um repetidor próximo.
Uns instantes depois, a centenas ou milhares de quilómetros, um gateway D-STAR recebe o nosso indicativo e sabe para onde deve encaminhar aquela chamada.
É uma bela combinação entre rádio, redes IP e aquilo que o D-STAR foi pensado para fazer desde o princípio.
Referências no IC-705 Advanced Manual
Secção 15 — ABOUT THE DV GATEWAY FUNCTION
- 15-2 — About the DV Gateway function: conceitos de Terminal Mode e Access Point Mode.
- 15-3 — External Gateway Function e utilização de RS-MS3W/RS-MS3A.
- 15-4 — Terminal/AP Call Sign e requisitos de registo.
- 15-5 a 15-10 — configuração da rede.
- 15-6 — UDP Hole Punch, porta UDP 40000 e respectivas limitações.
- 15-11 e 15-12 — Internal Gateway Settings do IC-705.
- 15-13 — configuração através de RS-MS3W.
- 15-14 — configuração através de RS-MS3A.
- 15-15 — activação do Terminal Mode e significado do ícone Internal Gateway.
- 15-16 — operação em Terminal Mode: Gateway CQ e chamada individual por call sign routing.
- 15-17 a 15-21 — Access Point Mode.
- 15-22 a 15-27 — diagnóstico e resolução de problemas; especificamente Terminal Mode nas págs. 15-23 e 15-24.
O manual inglês actualizado pode ser obtido na página oficial de suporte da Icom procurando por IC-705 Advanced Manual. Prefiro indicar desta forma em vez de copiar imagens ou páginas do manual, cuja reprodução pública é limitada pelas condições de utilização da própria Icom.
73 de Ricardo Oitavén — CT1EBQ,
and Eyla IA
